Thursday, July 26, 2007

"Pan, tam, por pan, tam"

“Pan, tam, por tam, pan”. A mídia pecadora e as representações do debate: pequenas provocações.


Não faz muito tempo, a escritora e filósofa Marilena Chauí, afirmou que não mais iria acompanhar as notícias veiculadas pela grande mídia. Alegou, salvo engano, que a informação é manipulada e não acrescida de um aprofundamento mais elaborado sobre os temas em pauta. Parece que ela tinha razão.

Estamos hoje, totalmente preenchidos de notícias sobre o maior acidente aéreo da história brasileira. O vôo da TAM, com os seus 199 mortos, a pista escorregadia do aeroporto de Conginhas, a descoberta da caixa preta, os relatos das famílias, o incêndio e as possíveis causas da pane. Muita informação.

Ao mesmo tempo, os informes sobre os Jogos Pan Americanos, realizados no Rio de Janeiro, chegam incessantemente ao nosso conhecimento de maneiras diversas. A contagem das medalhas, brigas ocorridas nos bastidores, especulação na venda dos ingressos para os jogos, os possíveis gastos a mais na construção da Vila Olímpica e, claro, as vais que o Presidente Lula recebeu na festa de abertura do evento. Muito se divulgou sobre o evento, pouco se discutiu. Ficou algo meio “tam, pan, por tam, pan”.

Estes dois fatos distintos ganharam a mídia pelo forte apelo popular que cada um deles despertou. A grande mídia não soube, no entanto, interpretá-los com maturidade. Faltou fomentar um debate mais elaborado sobre temas que certamente os dois eventos contemplariam: interesses econômicos, investimentos e distribuição de recursos públicos, sentimento de nacionalidade, críticas aos projetos das obras, assim como seus possíveis ganhos.
Manchetes com letras chamativas, estampadas esta semana em jornais, páginas internéticas e revistas senanais de notícias diziam que “Familiares das vítimas denunciam que os mais ricos e conhecidos são identificados primeiro”. A denúncia virou manchete, nada mais. Um tema para páginas e mais páginas de aprofundamento, discussão e cobrança em uma sociedade apartada como a nossa. Os meios de comunicação deixaram escapar esta possibilidade. A morte apareceu igualmente para todos, o reconhecimento dos corpos, não. A mídia apareceu igualmente para todos. Não houve reconhecimento individual. Vale citar duas exceções, o programa Observatório da Imprensa e o Jornal da Cultura, programas exibidos por emissoras públicas.

Também esperava, eu, pobre leitor, telespectador, ouvinte, que o trágico episódio resgatasse a memória coletiva reconstruindo o debate perdido sobre episódios anteriores com as mesmas características. Como andam as investigações, processos, indenizações, comportamento empresarial e o que mudou nas atitudes governamentais e privadas depois do acidente da GOL. Que outra aeronave caiu, há dez meses, todos nós sabemos. Talvez só os familiares das vítimas daquele vôo ainda discutam o tema, cobrem ações efetivas dos responsáveis. Faltou a continuação do debate público sobre algo que continua atual.

Outro pecado cometido pelos órgãos de imprensa na cobertura do vôo da TAM, foi dar voz a muitos sem estabelecer critérios para isto. Explicar quem são estas pessoas e que sentido tem veicular o discurso delas, foi algo que não apareceu. Confundiu ainda mais a opinião pública. Todo mundo falou: o diretor da ANAC, o Presidente da INFRAERO, comandantes das aeronaves, coordenadores do CONAR, tenentes do Corpo de Bombeiros, representante do Ministério Público, parlamentares, especialistas em aviação, o governo, a imprensa, os donos das companhias aéreas, os moradores de São Paulo, todo mundo falou. Só faltou a Marta, que relaxou e calou. Era uma das pessoas que deveria ser ouvida em relação ao episódio.

Não houve explicações mais detalhadas para quem acompanha as notícias, do que é a ANAC, as suas funções, os poderes que têm etc. E assim vieram o CONAR, a INFRAERO, o DAC e tantos outros. Não há debates mais elaborados sem esclarecimentos prévios do que seja cada órgão deste.

Com tantas vozes, tantas opiniões que duravam pouco mais de alguns minutos na mídia, é pouco provável que o consumidor (alguns chamam de cidadão) comum, saiba como funciona o sistema aéreo no País. Há um verdadeiro apagão: o de informações claras, precisas, amadurecidas. Todos já sabemos que houve um desastre, onde ocorreu, o número de mortos. O resto, como cobertura jornalística, foi um desastre. Vou ali comer um pão-de-queijo e discutir, tintin por tintin, com os colegas de quem é a culpa pelo acidente. Acho que é do governo. Depois falaremos do PAN, que só sabemos dos quadros de medalhas. Que vai dar Brasil, vai!

Tuesday, June 19, 2007

Dois gramas: ou o encontro de Vanderley com Lili

Ela, uma morena linda, estatura mediana, seios fartos, lábios carnudos, vinte e poucos anos. Chama-se Marli – Lili para os mais íntimos. Desde criança é míope e a beleza dos seus olhos castanhos claros não se perdeu atrás dos grandes óculos que usa atualmente. Trabalha como atendente em um grande laboratório de análises clínicas de Belo Horizonte. Solteira, cheia de pretendentes.
Ele, homem inteligente, estatura mediana, feições asiáticas, um pouco calvo. Parece ter uns quarenta e cinco, no máximo, cinqüenta anos. É petroleiro e sempre se veste formalmente quando não está em atividades profissionais. Divorciado, pai de três filhos e bastante religioso. Chama-se Vanderley, uma homenagem que os pais fizeram ao cantor Vanderley Cardoso, famoso até alguns anos atrás.
Van, como é conhecido pelos amigos mais íntimos, vai até o laboratório em que Lili trabalha. Precisa fazer um exame chamado de “Espermograma” – coleta de sêmen em um pequeno (não sei se é tão pequeno assim) recipiente de vidro para ser analisado pelo laboratório. Para isto, é necessário que ocorra o manuseio do órgão genital masculino pelo próprio paciente. Não vou dizer aqui que é a famosa “punheta”, “masturbação”, “bronha” etc, porque pode haver menores lendo o blog. O fato é que Van, como disse a nossa Ministra Marta Suplicy, deveria “relaxar e gozar”. Não nos aeroportos, mas na salinha de um laboratório por volta das 6:30h. Teria que trabalhar depois. Quem falou que vida de petroleiro é mole?

Lili – “Bom dia, senhor. Posso ajuda-lo?”.

Van – “Eh...sim...preciso fazer este exame. É a primeira vez que faço. Estou meio sem jeito, sabe?”.Rapidamente dá uma olhada nos seios de Lili e pensa: “não será tão difícil assim enfrentar este tipo de exame”.

Lili da uma olhadinha no pedido do médico e fala: “É, primeira vez é sempre assim mesmo. Já vi muitas pessoas com medo de enfrentar este procedimento quando ainda não o fizeram”. “O senhor nunca fez este tipo de exame antes?”, pergunta Lili com firmeza. “Tem certeza?”. Reforça a impostação da voz sem perder a delicadeza que lhe é peculiar. “É tão comum as pessoas fazerem este tipo de exame pelo menos uma vez no ano”, completou ela.

Van, meio sem jeito, se sentindo meio estranho por não ter se masturbado em laboratório pelo menos uma vez ao ano nas últimas décadas, responde:“sim, é a minha primeira vez em laboratório”. Abre um sorriso com ar de sedução para a jovem Lili e pensa: “acho que faz parte da estratégia de atendimento desta empresa apimentar um pouco o papo antes do exame”. Fica feliz com a possibilidade de se aproximar mais da agora atraente e sexy Lili.

Lili: - “Então, vamos?”. “Não se preocupe que eu conduzo tudo e o senhor pode relaxar que tudo dá certo”.

Van: - “Pode me chamar de você. Fica mais informal e vou perdendo o medo”. Agora Van sentia-se o verdadeiro garanhão mineiro. Iria comer quieto. Fantasiava o exame de diversas formas. “Será que ela vai demorar muito?”, “Existem outras atendentes de plantão?”, “Ah, vou contar tudo para os meus melhores amigos”, pensava o paciente nos pouco segundos em que se deslocava da sala de atendimento à estreita salinha de coleta de material.

Lili – “Está mais calmo, Vanderley?”. Sem querer, a doce Lili o chamou informalmente pelo nome. Nada de senhor, nome completo etc. Ela o chamou de Vanderley. Isto mesmo, Vanderley, com todas as letras. A boca carnuda de Lili havia falado: Vanderley. Era um convite ao sexo. Esperaria a hora certa.

Van: - “Pode me chamar de Van”. Lili o olhou com jeito esquisito.

Lili: - “Como é a sua primeira vez, vou usar esta borrachinha aqui para facilitar o “pega” do material”.

Van pensava então que Lili era mais libertina do que qualquer atendente que já conhecera. Borrachinha para pegar o material? Será técnica nova? Nunca ouviu falado nisto antes. Perdia o medo da primeira vez no laboratório para colher sêmen. Sempre ouvia comentários que havia revistas de sexo, fotos pornográfica, mas uma Lili diabólica, sexy e míope para facilitar a coleta do material era uma idéia pra lá de inovadora. Não faria objeções a tais novidades.

Lili continua: - “Se você sentir qualquer alteração mais significativa no seu corpo, pode me falar, estou aqui para isto mesmo.”. “Caso seja necessário, eu colho o material em uma cama específica para isto. Prefere a cama ou a cadeira?”.

Van estava ficando louco. Pensava em não ir trabalhar depois de todo o exame feito pois a produção de combustíveis não depende apenas dele, carros continuariam rodando. Convidaria Lili para almoçar e dependendo da qualidade do serviço realizado por ela, a pediria em namoro naquela mesma semana. “Ela me chamou de você pela segunda vez, acho que já viu as alterações significativas no meu corpo e me pede para falar sobre elas. Ainda me oferece a cama ou a cadeira como opções. Estou sonhando...”.

Lili, já perdendo um pouco a paciência pergunta: - “prefere a cama ou a cadeira?”.

Van¨- “A cadeira”, respondeu olhando-a firmemente . Não sabia se era a melhor escolha, mas optou pela cadeira.

Lili: - “Sei que você está meio apreensivo, mas é rapidinho”, explicou ela. “Se quiser colocar a cadeira mais pra frente, pode ficar à vontade”. Van não via o momento de tudo começar de fato. Cadeira, borracha, Lili e seus seios fartos, sua disposição de satisfazer o paciente. Ainda bem que tinha um bom plano de saúde. Não esperava que a ação fosse rapidinha. Daria trabalho a Lili.

Lili: - “Comeu algo antes de vir pra cá?”. “Bebeu ontem?”. “Teve relações sexuais nas últimas 24 horas?.

Van: - “Não, mas quero fazer tudo isto daqui a pouco. Comer bem, beber um bom vinho e sair com alguém especial como você”.

Lili sentiu-se meio sem jeito, mas gostou da “cantada” do Van. Disse a ele que não há coletas de sangue sem o jejum de algumas horas.

Van: - “O que? Coleta de sangue? Veja o que está escrito no pedido médico”.

Lili, um pouco apreensiva, ajeita os óculos, aproxima o papel com o pedido médico e lê “Espermograma”. Havia entendido “Hemograma”. Desculpa-se com o Sr. Vanderley e grita sem a menor cerimônia: “Luizão, traz as revistas que este paciente vai fazer aquele exame”. Completa: “É por ali, senhor, naquela sala. O nosso atendente o explicará os procedimentos. Sinta-se à vontade”.

Agradeço a Eliana, uma Consultora Empresarial que trabalha com treinamento profissional e imagem de empresas, por ter me contado o fio condutor deste fato. Fiz algumas alterações.

Para Rodrigo, que do seu esperma nasceu Catherine.

Friday, April 13, 2007

Aeroportos - crônica do Thiago Machado


Eu adoro aeroportos.
Também adoro estações rodoviárias (por mais estigmatizadas que sejam) e ferroviárias (por mais decadentes, no Brasil).
Quando eu era pequeno, e viajar de avião era uma coisa muito distante da minha realidade, a estação rodoviária representava a ligação com o mundo conhecido. Significava a porta de entrada para mundos distantes. Quando fui crescendo, comecei a me sentir fascinado por todos aqueles destinos luminosos expostos. Os mapas com toda a rede de determinada companhia de ônibus. Ver listados nomes tão distantes de Belo Horizonte como Ji-Paraná, Belém, Sinop, Mossoró, Juazeiro do Norte, Assunção. Aliás, a coisa que eu mais gosto é, na rodoviária, ir passando por todas as listas de destinos. Ver todos aqueles nomes de cidades e imaginar que dali se vai pra todos os lugares.
E, quando em outra cidade, ver as listas de destinos para outros lugares, então insuspeitados.
Aí mais tarde descobri os aeroportos. Quando eu era pequeno, morava perto do aeroporto da Pampulha. Andava de bicicleta na praça Bagatelle e às vezes brincávamos no saguão do aeroporto. Mas aquele lugar pra mim não tinha muito significado, e nós costumávamos ficar no terraço vendo os aviões pousarem e decolarem. E nos anos 80, meu pai nos levou a Confins para ver o grande aeroporto recém-inaugurado, e me lembro que foi um passeio incrível.
Mas, mais tarde, comecei também a ficar fascinado pelos grandes painéis de chegadas e partidas. Principalmente quando descobri os aeroportos verdadeiramente internacionais. E então, as listas de cidades de todo o mundo me hipnotizam. O mundo parece menor, quando se sabe que dali se vai para qualquer ponto do planeta.

Thursday, February 15, 2007

A insinuação da mídia e a desconfiguração do debate. Todos perdem.

Depois de semanas de exposição na mídia do chamado “crime da mega-sena”, que agora tornou-se mera estatística e perdeu o apelo popular, na última semana um crime bárbaro ocorreu no Rio de Janeiro e comoveu o Brasil inteiro pelos seus ingredientes de frieza e morbidez. Um garoto de sete anos chamado João Hélio fora arrastado por sete quilômetros preso ao carro de sua família após um assalto. A sociedade brasileira inquietou-se, transformou-se, tornou-se telespectadora de mais uma violência estampada nos jornais televisivos e impressos do País inteiro. Esta mesma sociedade mostrou-se solidária e esperançosa em ver futuramente a triste realidade nacional modificada.
A possível impunidade dos assassinos, presente em muitos momentos da nossa história (quem não lembra de pelo menos um caso?), foi o primeiro assunto veiculado pela mídia como necessário a ser debatido após o choque da morte do menino carioca. Alie-se a este ponto, o debate sobre a redução da maioridade penal.
João não pode ser apenas mais um número nas estatísticas da escalada da violência que assola o nosso país. Julgar os culpados mostra que a disposição pela luta não se extinguiu na nossa sociedade. Um alento em tempos tão sóbrios.
Para discutir o tema da impunidade e da presença da juventude em crimes bárbaros, parte significativa da imprensa desconsiderou neste episódio questões importantes e propícias para o debate coletivo mais aprofundado.
Um dos pecados da mídia nacional foi passar ao largo que o Estatuto da Criança e do Adolescente, o chamado ECA, foi um ganho social importante que impediu muitas vezes que diversos Joãos, Antonios, Willians, Marlis, Pedros e Marinas se tornassem números da perversa estatística de mortes infantis no Brasil. Sem o ECA, possíveis impunidades estariam colocadas a mais nos índices de violência do Brasil. Mortes, certamente ocorreriam.
O ECA foi citado e apresentado por diversos meios de comunicação no recente episodio, apenas como um instrumento capaz de livrar os jovens e crianças da punição mais severa pelos seus crimes ou desobediência as leis. O ECA é mais do que isto! Cumpre a imprensa o seu papel de incentivar a sociedade a unir-se em favor de uma ampla cobrança para que a impunidade não seja parte da nossa vida cotidiana.
Punição para os que não conseguem colocar em prática direitos como a liberdade de expressão para os adolescentes e zelar pela dignidade das crianças! Esta convocação seria uma auto-punição?
Os direitos das crianças e dos adolescentes, assim como os dos idosos, dos deficientes físicos, das mulheres, dos desempregados, dos gays e dos imigrantes não podem ser entendidos pela sociedade de forma fracionada, desdenhada. Assim, não estamos promovendo a discussão, o debate coletivo, mas promovendo mera insinuação de atos.
O que políticos, meios de comunicação e grupos organizados fizeram no caso do menino João Hélio foi banalizar a questão sobre se a sociedade “acha correto alguém cometer um crime e passar apenas três anos na prisão”. A resposta (assim como a pergunta) é óbvia.
Mas como mobilizar esta sociedade para que crimes (de maior ou menor comoção social) sejam sentenciados e realmente cumpridos? Como reverter um quadro de incontáveis sentenças judiciais nas quais penas de trinta, vinte ou dezoito anos se transformam em mera abstração da realidade e os condenados estão soltos? A divulgada e pouco discutida “sentença de três anos para os jovens infratores ou assassinos” nos assusta, não porque estamos falando de juventude, de violência, do caos urbano (e rural) ou da gritante e ainda mantida divisão social, mas porque não acreditamos na justiça como um todo. Preferimos acreditar que três anos de reclusão é pouco para um crime bárbaro. É pouco, claro.
Como pouco foi o nosso olhar crítico sobre o episódio do menino João, dos mortos da Candelária, dos jovens castrados no Maranhão, da irmã Stang, dos fiscais do trabalho em Unaí, dos que morreram à nossa volta aqui em BH, Ribeirão das Neves, Sabará ou Pedro Leopoldo. Ficamos mais informados, mais aterrorizados, nada mais que isto.
Incipiente é a contribuição que a imprensa e os meios de comunicação em geral (salvo raríssimas exceções) tem dado para que um debate mais apurado sobre a trágica realidade brasileira ocorra de fato. A briga pela audiência talvez não permita esta possibilidade. Diversos interesses estão postos. Os nossos, enquanto leitores, telespectadores, ouvintes e anunciantes, inclusive.
Que nossos jovens tenham direitos a atividades que os mantenham plenamente vivos, inseridos na dinâmica da cidade, que pode e deve ser acessível a todos.
É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor. Art. 18 do ECA. Cumpra-se!

Para William e Sãozinha, que acreditam na força juvenil sem alienar o debate sobre temas relevantes.

Monday, January 15, 2007

Gente e materialidade


Nas últimas semanas estive em sintonia com o meu passado e em devaneios com o meu presente. Um "que" de futuro se apresentou para mim depois de visitar Fortaleza, cidade na qual passei muitos anos da minha vida. Lá visitei pessoas queridas, revi meus colegas de bairro, presenciei conflitos familiares que se estabeleceram em diversos locais que visitei. Também tomei sol, bebi chopp e caipirinha, comi tapioca, cuscuz e caranguejo. Por certo participei da programação adulta que a capital cearense oferece. Me desvinculei totalmente das leituras e da escrita da tese por um tempo. Sei que pagarei um preço por isto, mas não sou de ferro.
Pois bem, queridos leitores (Arley, Thiago, vocês ainda estão aí?) nesta viagem que culminou com o batizado da minha sobrinha e agora também afilhada Gabriela, pude perceber as pequenas delicadezas e os improvisos que as relações cotidianas insinuam. Descreverei algumas neste texto e outras nas próximas crônicas.
Começarei falando das pequenas futilidades que insistem em ganhar dimensão maior nas nossas vidas e que não fazem sentido algum para outros: o meu irmão Antonio teve o seu celular afogado (isso mesmo, afogado) em um copo de suco pelo seu filho que tem apenas dois anos. Eu, assim que soube do ocorrido, perguntei logo como ele iria resolver o problema. Ouvi na lata a resposta: "Ôxe, eu acho é bom, assim ninguém fica me incomodando com ligações sem necessidade".
Eu, sujeito que não vive mais sem o tal aparelhinho ficava pensando na agenda telefônica cheia de telefones inúteis, na calculadora que nunca uso, na laterninha que não ilumina nada. Acho que o Tonho tá certo. Mais leveza nas interpretações do que é realmente importante nos deixaria menos tensos.
Depois encontrei com uma velha amiga chamada carinhosamente de Help. Era o dia do badalado sorteio acumulado da Mega-sena que pagaria algo em torno dos 50 milhões de reais. Passamos em uma casa lotérica e sugeri que fizéssemos uma aposta. A resposta? "Eu não, prefiro trabalhar. Se fosse um premio menor, daqueles que você ganha e compra uma casinha ou um carro, eu até topava". E continuamos a andar e relembrar antigas situações que vivenciamos juntos. Help não quer muito dinheiro, Tonho não quer celular. Aonde vamos parar?
Minha tia Beta pede a minha mãe para me dizer que desta vez ela não irá fazer um bolo que tanto gosto pois está adoentada. Em outra oportunidade esta mesma tia mandou o tal bolo para mim por meio de um amigo que veio me visitar aqui em BH. Verdadeira emoção com entrega em domicílio (via Gol transportes aéreos). Mais vale um bolo voando do que nenhum cozinhando. Alguém se preocupando com fazer bolo mesmo com a saúde debilitada? O mundo tá acabando, minha gente.
Pedrinho, outro antigo colega de bairro, perdeu a sua carteira de dinheiro pela enésima vez. Ao perceber que havia perdido mesmo, ouve de alguém que ele deve ligar imediatamente para a administradora do cartão e para o banco comunicando o fato. Os amigos riem e pergutam se há como bloquear o cartão telefônico pois Pedrinho não tem cartão de crédito nem conta bancária. Pedrinho existe. Não tomei sol demais nem bebi exageradamente.
Amanhã tem histórias de amor e de desencontros na terra de José de Alencar.

Para Tonho, que dirige não só ônibus, mas palavras de afeto e cordialidade aos que dele se aproximam.
Para Pedrinho, Neto e Roncalli, amigos de Tonho que tomo de empréstimo quando vou a Fortaleza.

Monday, December 11, 2006

Carro, família e vídeo-game

Procuro não perder muito tempo vendo programas de tv. Este era um dos meus passatempos prediletos na infância. Lembro que um dia passei mal e levei a família toda ao stress porque faltou energia elétrica na casa dos meus pais e não seria possível ver o programa do Sílvio Santos que começava as 11h da manhã e ia até as 20h. O tal programa estava registrado no Guiness Book, o livro dos recordes, como a atração televisiva que ficava mais tempo no ar em horas continuadas e eu achava aquilo o máximo.
Para resolver o conflito do filho sem tv, meu pai me levou para a casa de um amigo dele que me aguentou um domingo inteiro vendo o "homem do baú" e suas brincadeiras repetitivas. Podia faltar tudo na minha casa, menos o progrma do Silvio Santos para mim. Os meus irmão saima para a rua, tida como perigosa ainda hoje. Os reflexos deste comportamento estão nas minhas ações pessoais até agora e não há terapia que cure. O estudo, talvez.
Bom, deixemos as minhas lembranças infantis de lado e passemos ao momento atual: no último sábado passei rapidamente os olhos nos programas exibidos pela tv aberta e percebi pequenos deslizes nas falas dos que comandam os respectivos programas. Um deles propõe deixar carros velhos e estragados com cara de novos. É uma festa! Ver o antigo carro com nova coloração, limpo, cheio de acessórios como som e portas automáticas deixa qualquer um emocionado.
Depois de entregar o carro transformado ao "sortudo" que o programa escolheu para agradar aos seus patrocinadores, o apresentador diz que tem uma surpresa a mais: no carro estão instalados dois vídeo- games novinhos para que os filhos do presenteado não briguem mais enquanto viajam ou se locomovem no carro.
A minha infância sofrida, mas bem vivida estimulou todos os meus "subs" e inconsientes quando vi o tal programa sábado e lembrei de um ensinamento básico na casa dos meus pais: dividir com outro as emoções e as brincadeiras. Exageramos e dividimos porradas muitas vezes.
Tomei um susto quando ouvi o apresentador dizer em alto e bom tom: DOIS VÍDEO-GAMES no seu carro para que os seus filhos não briguem mais! O presente foi entregue com uma pitada de intromissão na vida familiar do outro e aparentemente todos concordaram. Soou como algo lógico, comum, simplista, próprio dos dias de hoje. A possível conversa no interior do "novo"carro, literalmente morreu.
O importante é que esta família está em paz, com o seu carro refeito e com os filhos acompanhando a modernidade . Como diria a minha avó: uma família unida, completa e feliz.
Volto a falar de tv no próximo texto. Me empolguei demais na escrita deste.

Para os meus pais, que a cada saída no nosso velho fusquinha nos estimulavam a conversar através de brincadeiras, observação da cidade e pasmém, das brigas.

Tuesday, December 05, 2006

Perigo, perigo, perigo!

Socorro! Xuxa, a apresentadora de programa infantil (?) lançará um livro relembrando os seus 20 anos de carreira.
Vou estudar um pouco e volto logo.
Aos amigos leitores agradeço a paciência pela não atualização mais constante do blog.
Paulo

Tuesday, November 28, 2006

Enrolado que gosta de curtas (e boas)



Muitos amigos dizem que eu sou "enrolado" demais. Creio que sou mesmo. Estou às voltas com diversas atividades por finalizar e fico proletando a escrita do blog. Peço desculpas ao parcos, mas fiéis leitores que insistem em ser fiéis a este sonhador.

Enquanto elaboro um texto para a próxima sexta-feira, indico um site pra lá de interessante. É http://www.portacurtas.com.br . Neste endereço há centenas de pequenos filmes que vão da comédia à ficção, do documentário à animação. Há uma coluna em que você clica e há a exibição aleatória de um filme, uma espécie de roleta da sorte. O que saiu para mim chama-se "Unidos vencerá" que trata de futebol e a sua relação com a torcida. Lembrei de diversos amigos enquanto o vídeo era exibido. É grátis, basta você digitar o seu e-mail e uma senha de acesso.

Um abraço a todos. Não abandonem esta coluna, por favor. Volto logo!

Petroleiro Predileto, mantenha contato. Tô com saudades dos papos.

A foto que ilustra o texto tomei emprestada dos arquivos do William.

Monday, November 13, 2006

Sedução do passado

Desde a minha infância tenho um certo fascínio pela história biblica de Sodoma e Gomorra. Contada pela minha avó materna, essa passagem relatada pelos escritos sagrados ganhava ares de medo, terror, e claro, muita inquietação com a perspectiva de virar sal se olhasse para trás.
Aos leitores mais religiososo peço perdão para contar a minha versão do episódio bíblico tal qual imaginei quando ouvia os relatos da minha avó. A história era mais ou menos assim: muitos homens e mulheres viviam em cidades sem regras. O pudor perdeu o seu espaço e a libertinagem tomou conta de todos. Era o verdadeiro canaval carioca em épocas mais remotas. Todo mundo bebia, cheirava e transava o dia todo. O trabalho parecia não existir para ninguém. Era o paraíso, digo, o inferno.
Deus, então, num dos seus dias de trabalho árduo e inquieto com a tranquilidade celeste, viu que as pessoas de Sodoma e Gomorra não estavam nem aí para as práticas religiosas e morais e mandou uma mensagem avisando que ia destruir as cidades e quem quisesse se salvar deveria abandonar tudo e seguir para outro lugar seguro. Foi o assunto do dia nas cidades. Entre uma bebedeira e outra as pessoas pensavam se abandonariam ou não as cidades.
No entanto, avisava o Poderoso Chefão, os que desejassem a salvação, além de trilharem um caminho seguro, não deveriam olhar para trás em hipótese alguma. Deveriam seguir o caminho da libertação com o olhar para frente.
Certamente muitos curiosos e incrédulos deram uma espiadinha para ver o que acontecia em Sodoma e Gomorra e se transformaram em estátuas de sal. A narradora desta pequena história me lembrava que havia muitas explosões, que as pessoas gritavam muito, que o choro tomava conta de quase toda a população. Eu perguntava a minha avó como alguém conseguia não olhar para trás com tanta confusão. Se duvidasse ainda haveria alguém "tomando umas" mesmo sabendo que iria pagar um preço alto pela escolha.
A resposta da vovó era que os que queriam ser salvos deveriam olhar para frente e deixar os erros do passado sepultados, imexíveis.
Tenho pensado na idéia de sacudir os elementos do passado para construir a salvação (não no aspecto bíblico) das minhas propostas de vida atuais. Rever as imensas bobagens que fiz por mera opção clara e definida sabendo que tudo se transformaria em sal depois. Viver é errar. O ano pra mim terminou. Ainda não me transformei em pedra de sal. Estou mais insosso do que nunca, mas continuo dando umas olhadas para trás. Curiosmante o passado me seduz.
P.S - agora vou ler, quase 40 anos depois de ouví-la da minha avó, como a história de Sodoma e Gomorra é retratrada na bíblia.

Fran, este texto é para você, que não lê o meu blog, mas é parte do meu passado, do meu presente e claro, do nosso futuro.

Friday, November 03, 2006

Vôos

Caos nos aeroportos. A notícia se repete há vários dias. Enquanto as pessoas não voam por conta dos problemas com as companhias aéreas, estou em casa compensando o atraso de algumas atividades com as quais estou envolvido. A atualização do blog é uma delas.

Volto já, prometo.

Venilsom, obrigado pela leitura do blog. Bom demais saber que vc passou por aqui.

Abraço grande, PH

Thursday, October 26, 2006

Proibições casuais


Nos pequenos percursos que faço durante o dia, tenho percebido que as proibições, tidas como parte da nossa vivência cotidiana, ganharam uma nova roupagem com os incessantes avisos de "não faça isto", "não faça aquilo". Parece que a sociedade não acredita mais na livre organização das pessoas para que não excedam os limites aceitos pelo grupo ao qual pertencem. Senão vejamos:

Um dos banheiros de um grande hospital de Belo Horizonte divulga através de diversos anúncios escritos que é "proibido lanchar" naquele local. Será que erraram o local de divulgação do aviso? Não sei. O certo é que no mesmo instante em que vi o tal anúncio peguei a minha barra de cereal que guardei da última viagem que fiz por aquela companhia aérea de baixo custo e a comi com aquele ar de quem "quebrou a regra estabelecida". Regrinha mais besta, sô. Banheiro por acaso é local de fazer lanche? Nem mesinha tem!

Ainda no mesmo banheiro há outro aviso que diz: "caros pacientes, usem bucha e sabonete no banho". Logo após há outro que indica que é favor "economizar água e ser rápido no banho". Confusão geral nas ordens. Como conciliar banho rápido com sabonete, bucha e economia de água? Novamente tive que ignorar os avisos.

Por falar em banheiro, as tradicionais instruções vistas em qualquer shopping ou escola de que "duas toalhas de papel bastam" para enxugar as mãos parecem motivar as pessoas a puxarem no mínimo, umas quatro delas. Contrariando o ditado popular, duas toalhas de papel parecem não serem suficientes para a secagem das mãos.

Vou seguindo no caminho para casa e o texto colado no vidro de um ônibus urbano avisa que "é proibido carona". Esta frase me chama a atenção e mostra um comportamento social presente no transporte público: a carona não autorizada, mas possível. Meia hora de percurso e percebemos que há várias viagens sem custos para diversos passageiros.

Chego na padaria e há um cartaz alertando para "não tocar nos pães". "Vixe, o mundo tá perdido mesmo", pensei. Com todos aqueles pegadores de alumínio disponíveis as pessoas querem tocar nos pães? O curioso desta advertência é que não há como "tocar" nos pães, pois há um vidro separando os consumidores dos produtos ofertados.

Vendo todos estes avisos e diversos outros que esqueci de citar aqui, penso que poderia haver proibições mais instituidas no nosso dia-a-dia. Cito algumas:

# É proibido àquela rede de telefonia fixa que insiste em ser má, ligar para vc nos horários mais inoportunos oferecendo promoções e produtos que no futuro só te dão aborrecimentos;

# Não será permitido a colagem de anúncios estabelecendo as regras sociais. O respeito ao outro falará sempre mais alto através da cordialidade, da responsabilidade e do bom senso coletivo;

# Está abolido a regra única boba para todos, como ser rápido ou não no banho. Salve-se a individualidade, muitas vezes boba também.

Para Marli e Sérgio, pessoas que não me proibem de conhecê-los um pouco mais.

Sunday, October 15, 2006

Pescaria: encantos e desencantos.

Pescar nunca foi uma das minhas atividades favoritas. Por um bom tempo morei em cidades em que esta atividade era parte do cotidiano das pessoas. Lembro que quando ainda era criança, via os pescadores organizando todo o material para mais um final de semana com amigos. Na minha mente ficou a idéia de que pescaria sempre ocorre em grupo. Não sei se esta conclusão pessoal está correta.
Pois bem, no último sábado, dia nublado aqui em Belo Horizonte, liguei para um colega para saber o que poderíamos fazer no feriado "imprenssado" e ele respondeu: "vamos a um pesque e pague no inerior?" "Você vai gostar", garantiu ele.
Eu que pensava em ir a cinemas, restaurantes, shoppings ou mesmo dormir o dia inteiro, aceitei a proposta. Já me imaginava um verdadeiro predador de peixes em plena Minas Gerais. Pouco mais de meia hora depois de ter falado com o meu colega, estávamos a camino do tal "pesque e pague". Este foi o primeiro momento divertido do dia: descobrir o caminbo que nos levava até o destino final. Luiz, o meu companheiro de pescaria, falava das pessoas que víamos ao longo do caminho, da paisagem que se apresentava na estrada, da importância da pescaria para ele etc. Segundo ele, pescar faz um bem danado, nos deixa mas tranquilos e é um divertimento barato. "A gente sái do stress", complementou ele.
Chegamos ao tal "pesque e pague". Lugar mais bucólico não tenho visto nos últimos anos. Patos, galinhas, um grande lago, diversas pessoas conversando e um pequeno bar e restaurante. Mas, é tem um mas, a dinâmica do funcionamento do lugar tomou jeito de negócio, de comércio. Disto eu não sabia.
Chegamos, pegamos cada um o seu material (vara, anzol, iscas, copos, isopor e cerveja). Perguntei ao Luiz cadê as minhocas e ele deu uma gargalhada. Respondeu que peixe hoje não come mais minhocas.
Levei um susto. Peixe não come mais minhocas? Galinha não come mais milho? Coelho não come mais cenoura? O mundo tá perdido mesmo. Luiz explica que os peixes agora comem ração, assim como os cachorros e gatos. Tem, segundo ele, uma ração especial que garante a pescaria: a de sabor de tutti-frutti. Achei que ele estava mentindo, mas era verdade. Iniciamos a pescaria.
Outro detalhe me chamou a atenção: os pescadores não seguram mais as suas respectivas varas, há uma pequena argola de ferro chamada "secretária" que faz esta função. As mãos dos pescadores agora só se ocupam dos copos de cerveja.
Pergunto se ali tem muitos peixes (vou deixar de perguntar tanta coisa) e o Luiz responde: "claro, os donos repõem o estoque de peixes todos os dias. Tá vendo aquele reservatorio ali? É o lugar onde ficam os peixes que vem pra cá depois". Me senti mais burro ainda. Pensei que havia um lugar para a pescaria e que a quantidade de peixes não era garantida pela reposição do dono.
Tomamos duas cervejas e nada de pegar nehum peixe. Puxávamos as varas e não havia mais isca alguma. Os peixes aprenderam a comer sem serem fisgados. São os peixes-políticos. Reclamei com o Luiz que não havia peixe e ele pediu calma. Disse para não me preocupar pois os peixes iriam aparecer. Caso o dono perceba que não há estoque suficiente de peixes, ele libera mais. No pesque e pague é assim, ninguém sai frustrado.
Mais uma cerveja e nada de peixe. Fui ficando sonolento e deixei a vara estendida na tal "secretária". Nem olhava mais se havioa isca, pois tinha certeza que os peixes havia comido tudo sem serem fisgados.
Um peixe politicamente correto movimentou a vara de pescar do Luiz. Fizemos festa. Um peixão de aproximadamente, um sapato tamanho 42. Achei muito pequeno e falei para jogarmos no lago de novo e pegarmos outro. Isto não é possível, se você pesca tem que comer ou levar para casa. Pedimos para assar o tal peixe tilápia tamanho pé 42 e a cozinheira nos oferece outro já disponível na cozinha. Aceitamos. A fome era grande.
A pescaria está encerrada. Falo que quero continuar mas o Luiz diz que não podemos ficar apenas nos divertindo. Se pegar um peixe não podemos devolvê-lo ao seu habitat natural. É necessário comprá-lo. Fiquei surpreso com tal conclusão. A partir daí o pesque e pague transformou-se apenas em um bar e resataurante. As nossas varas, as iscas e os anzóis parados. Vontade de desobedecer as ordens não me faltou. Aproveitei para descansar, conversar com o Luiz e ver os pescadores de ilusão contentes com as suas práticas orientadas e baseadas no consumo apenas. "Como pode um peixe vivo viver fora da água fria"? O verso da música traduz um pouco a lógica do capital. O mesmo capital que estimulou momentos de interação enter eu e o meu colega.
Não pesquei nenhum peixe. Acho que não sou pescador mesmo.
Luiz, este texto é dedicado a você, pescador de bons sentimentos.

Saturday, October 07, 2006

Costurando alienação: quando o novo não aparece

Uma figura emblemática, curiosa e bastante popular venceu as eleições no domingo passado no maior colégio eleitoral do país: Clodovil, o apresentador de tv e estilista teve quase 500.000 votos desbancando do pleito personagens antigos e experientes da cena política nacional. Até aqui nada de novo.
Clodovil, como todos sabem e é amplamente alardeado na imprensa nacional, não tem um projeto político definido para o seu mandato, diz não saber como funciona o esquema de trabalho do Congresso Nacional e alardeia que desconhece quanto vai ganhar entre salários e “extras” durante o período em que estiver à frente da atividade parlamentar.
Deve saber, no entanto, que esta não é uma função gratuita, voluntária. A sua farta conta bancária (segundo ele mesmo) ganha agora um reforço com alguns “trocados” a mais. Sabe também que o seu cargo permite empregar algumas pessoas de sua confiança. A abstração da realidade tem os seus limites, claro. É necessário respirarmos um pouco de realidade de vez em quando.
Este personagem, tido por alguns como enigmático, foi eleito por muitos milhares de eleitores paulistanos debochando da própria homossexualidade e da política nacional. Conseguiu com isto, reproduzir em cadeia nacional de rádio e tv através do horário político obrigatório, fragmentos de atitudes que fazem parte do nosso cotidiano. As piadas, mesmo as de gosto duvidoso, fazem parte da nossa história. Os debates mais densos sobre preconceito e as propostas políticas deste então candidato, ficaram sem importância naquele contexto. Respirar um pouco de alienação nos faz bem.
As "pérolas" (asneiras mesmo) proferidas pelo Clodovil antes e depois das eleições surtiram um efeito devastador na percepção coletiva do que seja uma eleição séria, amadurecida, com debates mais elaborados sobre o papel da política na sociedade atual. Certamente ele não está só neste esfacelamento da seriedade que um processo eleitoral possa promover. Nós, eleitores ou não, clamamos de certa forma pela morte da seriedade dos temas em época de campanha política. Clodovil saiu na frente.
Em seu programa eleitoral as pautas se inverteram e as que abordavam temas mais instigantes e sérios como corrupção e propostas de governo deram lugar ao tom caricato e visivelmente jocoso de quem tinha como proposta apenas eleger-se para depois descobrir as trilhas do poder. “Brasília não será a mesma depois de mim”, falava o então aspirante a um cargo político, o Clodovil. Creio que ele foi tímido na sua assertiva. Desconfio que a política nacional não será a mesma depois da sua eleição.
Clodovil, o agora deputado federal provoca risos e fúria. É capaz de dizer com todas as letras que corrupção não se estabelece com pouco dinheiro. É preciso, na visão dele, ter muito dinheiro para que corruptor e corrupto se entendam. Traduz com propriedade a demência preconceituosa estabelecida socialmente que reproduz que os que carecem de mais dinheiro ou os que não tem uma conta-corrente mais suntuosa são mais vulneráveis à sedução do capital, venha ele de onde vier. Clodovil pode errar nas suas opiniões, ninguém o leva a sério. Este é o perigo.
Cumpre registrar o mérito dele ter vencido o pleito através de um pequeno partido político. Alguém conhece o PTC?

Em www.estuariope.blogspot.com , do meu mano Samarone, há um texto pra lá de interessante sobre o período eleitoral.

Dedico este texto a Aninha (Piu), que assim como alguns políticos, some, desaparece.

Tuesday, September 05, 2006

Uberlândia e o paraíso: reflexões sobre gente.


Uberlândia é o meu paraíso espiritual. Mesmo que a imagem de paraíso apareça como enfadonha algumas vezes (anjinhos quietos, organização impecável e principalmente, nada de pecados), ela contempla a calma, a coletividade e um amor maior pelo outro. O inferno tem lá suas seduções, claro!
Em Uberlândia posso chegar sem a menor cerimônia e passar o dia inteiro na casa de uma senhora simpática, bela e muito religiosa sem ao menos avisar que iria visitá-la. Conheço com mais propriedade apenas um dos seus filhos. No caso, uma filha.
Nesta casa é possível perceber que as relações humanas são cheias de significados e carinho. O dia dois de setembro foi marcado por músicas, comidas, conversas sobre temas os mais variados e por muita harmonia. Chovia lá fora e as águas da contemplação do outro inundavam uma residência do bairro Umuarama. Outras pessoas chegaram e participaram desta vivência coletiva. Há tempos não me sentia tão humano (nem sei se sou ao certo).
Em Uberlândia posso chegar no bairro Canaã a qualquer hora e ser recebido delicadamente pelas pessoas que moram neste endereço sempre com ar de festividade quer o tempo esteja bom ou ruim lá fora. Neste lar só há tempo bom. Louvado os que crêem no paraíso, pois ele existe.
Louvado seja eu que encontro em um churrasco na casa de uma família de japoneses o gostinho bom e seguro das boas amizades. Reflexão sobre a vida com Iahisoba (é assim que se escreve?) é sempre bom. Nesta casa que inspira bom humor e fraternidade conhecia apenas uma das netas dos anfitriões. A interação coletiva pasava pela conversa sobre vidas, sonhos e experiências particulares. Até o tema casamento foi compartilhado. Falo sobre isto no próximo texto.
Uberlândia e o paraíso têm os seus anjos. O que seria de mim se a passagem por Uberlândia não prestigiasse o suave teor alcóolico que brota da convivência pouco frequente com alguns amigos? Estes amigos são anjos da guarda mesmo. Guardam sempre um tempinho para bebermos umas e outras em barzinhos amarelos, verdes ou rosa. Guardam sempre uma conversa agradável para compartilharem com os amigos. Guardam ansiedades para terminarem as suas ativdades em andamento. Guardam sonhos que vão se construindo. Não guardam vaidades acadêmicas ou pequenas chateações cotidianas.
O paraíso apresenta um Deus (ou vários, sei lá!). Uberlândia também: o Deus da humanização das relações sociais e afetivas. Por que não estou morando lá ainda? Talvez porque o paraíso não seja para todos mesmo.

Para Cíntia e sua família. Para Akely e sua família. Para Tião e sua família. Para Rodrigo e Arley, minha família de alto teor alcóolico e fraterno. Este final de semana foi inesquecível.

Sunday, August 20, 2006

Quase um texto

Alguns leitores já sabem, outros ainda não, mas esta semana serei um quarentão. Estou quase lá. Por este motivo escrevo hoje sobre a perspectiva apontada pelo "quase", vocábulo que frequentemente está na nossa conversa diária e nos incomoda muito.
Sim, porque o "quase" parece sinalizar desmotivação, pouco empemho, fragmentos, inconclusão. O "quase" chega com gosto de impossibilidades. Não gostamos disso. O quase nunca é o todo.
"Eu quase perdi o horário", dizem milhares de amantes todos os dias aos seus parceiros. A falta de pontualidade pode apimentar a relação e permitir que as partes sintam mais falta uma da outra. Nem tudo está perdido. A espera é sempre uma possibilidade.
"O relacionamento quase acabou por conta disto", reclamam alguns quando há incompatibilidade de gênios entre as pessoas com as quais mantém relação de intimidade. O "quase", neste caso, significa que algo solidifiocou-se, ganhou dimensão maior: a partilha da vida em comum.
"Estou quase ganhando nenêm". Quer certeza maior de que o termo "quase" enquanto visão fragmentária de algo sem conclusão não se estabelece? Aqui, o "quase" endossa que o bebê já ganhou uma identidade própria, já tem uma mãe, uma agenda marcada para o dia do parto, padrinhos escolhidos etc. O "quase" é só para dar um certo charme no diálogo com o outro.
"Quase ganhamos o campeonato". Podemos ser os últimos colocados na pontuação geral, mas nada impede que o sonho coletivo de tornar-se campeão chegue para todos. O "quase", que significa em diversos momentos do esporte uma impossibilidade real de vencer, mostra a possibilidade de uma melhora na auto-estima de diversas pessoas.
Eu quase escrevi o texto como pretendia originalmente. São quase uma e meia da madrugada desta segunda feira de agosto e estou quase dormindo. Acredito que os meus parcos, mas fiéis leitores me entenderão. Segue o texto na forma em que se encontra. Um "quase" texto.
Continuo aguardando as contribuições dos amigos e colegas para dividirmos o espaço do blog.
Para Humberto, um fluminense quase mineiro.

Tuesday, August 15, 2006

Coisinhas da Metrópole (I)


Morar e viver na metrópole tem características do movimento acelerado, das confusões cotidianas, dos ritmos desencontrados, da falta de tempo para desenvolver todas as atividades que pretendemos. Quantos lamentos tenho ouvido das pessoas que estão na Metrópole! Tudo parece o caos e o discurso saudosista dos modos de vida de antigamente ganha a admiração de muitos.
“No meu tempo”, dizem alguns, o velho era respeitado. “Naquela época”, reforçam outros, a palavra valia mais do que qualquer coisa. “Quando aqui não tinha nada disto”, registram outros, todo mundo conhecia todo mundo. E as frases que dão o tom de como era a vida corriqueira na metrópole de ontem seguem seduzindo e encantando as pessoas. As palavras dos velhos nos dão o tom de que muita coisa mudou neste “mundo de meu Deus”, só para citar mais uma frase bastante comum utilizada atualmente.
Fico aqui a perguntar se realmente as coisas mudaram ou apenas não percebemos que ainda hoje podemos dizer que expressões como “no meu tempo” ou “naquela época” ainda não perderam o seu prazo de validade. Vou enveredar pelas pequenas experiências cotidianas para explicar a minha dúvida sobre a validade das expressões citadas.
Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, um dos estados mais ricos do país. Nela vivem mais de dois milhões de habitantes. Nesta cidade o trânsito é maluco, há sérios problemas de habitação e de saúde, os índices de violência assustam e a as pessoas adoram comer pão-de-queijo. Muitos dizem que não conhecem sequer os seus vizinhos. Que pena, também não conheço os meus, nem esboçamos o mínimo de intimidade a não ser os velhos (mas importantes) cumprimentos formais.
Mas há um menino chamado Gabriel, que deve ter entre 7 e 9 anos, que traça caminhos diferentes das formalidades e imediatismo. Ele é meu vizinho. Entra na minha casa sem pedir licença e vai logo perguntando se não tenho docinhos para dividir com ele. Não sei de onde ele tirou a idéia de que tenho docinhos em casa, mas vai entrando sem cerimônia, perguntando o que estou fazendo, para onde fui, onde está a minha família etc. Dia destes, sem nenhuma cerimônia entrou no meu carro, conversou até dizer chega e me perguntou pra onde eu ia. A metrópole permite informalidade e intimidade.
O menino Gabriel quebra as relações formais, estressantes, angustiantes. Ele muitas vezes sequer fala comigo quando algo o aborreceu, mas de vez em quando comemos algumas balas juntos e esboço um início de convivência mais próxima com os seus pais. Coisinhas da metrópole.
Depois de um dia de trabalho de campo para a pesquisa de doutorado que estou desenvolvendo, paro para tomar um caldo em um destes centenas de botecos que funcionam em BH. Já passei por lá umas três ou quatro vezes e o dono, que me viu algumas vezes de longe grita “Paulinho”. Parece que somos velhos conhecidos e chego a acreditar nisto. Sai do balcão e vem me cumprimentar e perguntar como foi o dia, o que fiz e onde anda o meu amigo que foi lá comigo da última vez. Fiz um esforço para me lembrar do tal amigo e vejo que o dono do boteco esta bem bom de memória. Havia um amigo comigo da última vez que estive aqui? Pensei comigo.
Para esboçar um papo com o dono do bar, perguntei-o sobre o horários de funcionamento do local e ele disse que abre às 17 horas e fecha por volta de meia-noite todos os dias. Mas, complementa ele, “quando bate a saudade da mulher, eu fecho qualquer hora. Hoje é um dia que eu vou fechar mais cedo pois estou com saudade da patroa”. Apressei a colherada e terminei de tomar o meu caldo para não atrapalhar o romance do velho proprietário do boteco que foge do tempo padronizado de funcionamento de bares e da sedução do lucro em ir até o último cliente e inventa um outro tempo. O tempo das pessoas. Coisinhas da metrópole.
No meu bairro há uma banca de revistas bem próximo de onde moro. É daquelas com aspectos ainda mais antigos, quadradona, sem geladeiras para a venda de sorvetes, com poucas opções de revistas, não há livros para a venda e fecha bastante cedo.
Fui comprar jornal em um destes finais de semana nesta banca e não tinha dinheiro trocado em mãos. Voltei sem o exemplar? Claro que não. A mulher do jornaleiro disse que não havia problemas, que poderia pagar depois, pois eles já me conhecem. Me conhecem? Perguntei a mim mesmo. “Você passa aqui todos os dias pela manhã, pode pagar depois, não precisa ser amanhã. No dia que você quiser”, enfatizou a mulher.
Ah, meu Deus, pensei, como estas coisinhas da metrópole são boas para recompor o organismo e nos fazer acreditar no outro. Quem dera os bancos tivessem esta mesma flexibilidade que os jornaleiros me permitiram. Acho que leria mais. Se o tempo das aulas, da pesquisa e da produção científica se amparassem na teoria do dono do bar, descansaria mais. Se me permitisse dividir mais docinhos e intimidades com o outro, com certeza amaria mais. O “naquele tempo” é hoje, basta olharmos com um pouco mais de atenção.

Este artigo seria originalmente o primeiro do blog. Depois ficou perdido el algum lugar. Dedico-o a Adriana Angélica, que conheci “naquele tempo” do mestrado e que hoje desenvolve a sua pesquisa de Doutorado sobre a memória dos velhos de BH.

Saturday, August 12, 2006

Sorvete, lembranças e avó

Um sorvete traz muitas lembranças. Cheguei a esta conclusão após sair dia destes para aproveitar um dos poucos dias de calor que tem feito aqui em BH. Fui colocando diversos sabores em um pequeno recipiente para ver no que a mistura ia dar. Qunado cheguei quase ao final do balcão e as opções estavam no fim, vi um pote escrito "Ameixa". Olhei de novo, respirei fundo e lá estava eu caprichando na medida da bola e viajando no tempo por causa de uma bola de sorvete.
Explico: desde que eu era menino (ih, os anos passaram rápido) costumava ir com a minha avó materna tomar uns sorvetes após a missa dominical ou mesmo nos finais de tarde em qualquer dia da semana. Eu, indeciso como ainda permaneço, passava um tempão escolhendo se queria sorvete de tapioca ou de siriguela, se misturava sorvete de tamarindo com milho verde. Tempos em que eu morava no Ceará.
Depois vinha a boa velhinha (todas as avós são) e dizia sem nehum vacilo ou indecisão: "quero o meu de ameixa". Uma dezena de opções e ela dizia sempre a mesma frase: "O meu é de ameixa". Depois percebia que ela olhava curiosamente para ver se havia pedacinhos da fruta no seu pedido. Estes momentos não esquecerei jamais. O neto indeciso que saboreava fragmetos de diversos sabores e a avó decidida, que não se rendia aos apelos das demais opções de sabores de sorvete ofertados. "Ameixa faz bem", dizia ela. Concordava sem nem saber o porque.
Depois fui incorporando o sabor escolhido pela minha avó ao meu paladar. O sorvete com sabor de ameixa sempre está entre as minhas opções favoritas até hoje. Tem um sabor de carinho de vó. Faz bem mesmo.
Para não perder o costume, nesta última degustação de sorvetes que fiz há poucos dias, deixei a bola com sabor especial por último. Anos se passaram, erros cometi, acertos esbocei e percebi que um simples sorvete pode modificar planos, alterar humor, fomentar a suadade e estimular a memória. Ainda sinto o gostinho da interação com a vó Zeneuda no ar. Continuarei falando de goluseimas e pessoas.

Para Vó Zeneuda, que não toma mais sorvete comigo. Para Dona Noemia, que sempre tem uma boa conversa quando almoço em sua casa.

Monday, August 07, 2006

Lugares, "estranhos" lugares. Por Thiago Machado.

Viajar é sempre muito bom. Pra longe, pra perto. Pra cidades grandes e pequenas. Pro mato e pras metrópoles. De carro, de ônibus, de avião, de trem. Só não sei de navio, porque nunca viajei. Nem posso, ia ficar mareado.
Tive de ir a Alvorada de Minas, umas duas semanas atrás. Alvorada de Minas?? Onde diabos é isso? Essa é a pergunta que todos me fazem. Alvorada de Minas é uma cidade minúscula, de uns 3 mil habitantes, pouco depois da Serra do Cipó e de Conceição do Mato Dentro, a uns 200 km de Belo Horizonte. Pertinho! Ônibus às segundas, quartas e sextas, uma vez por dia, que leva umas seis horas pra chegar, porque para em todos os lugares.
Até Conceição do Mato Dentro, de fato era pertinho, tudo era familiar. Passando por Lagoa Santa, pela área dos acampamentos mais populares da Serra do Cipó, por caminhos que 10 entre 10 belo-horizontinos conhecem. Conceição – forma abreviada que os mais íntimos com a cidade usam, inclusive a placa – também é um lugar familiar, e próximo. Estando lá, eu sabia ainda que estava nos arredores da metrópole mineira.
Paro num posto de gasolina em Conceição para comprar água e me informar sobre como chegar a Alvorada (já tenho intimidade também), pois nunca tinha nem ouvido falar desse lugar. O frentista me explica – tenho um pouco de dificuldade de compreender, é incrível como o sotaque pode mudar tanto num raio de 140 km – que basta seguir a própria rua do posto por um tempo e eu verei uma saída à direita. “Mas não entre nessa ainda”, ele se adianta, “tem outra mais à frente que só dá em Alvorada, é mais fácil”. Pelo que eu entendi, a primeira serve para ir a outros lugares e eu poderia me confundir. Tudo bem. “Essa estrada lateral é uma estradinha meio ruinzinha”, ele me adverte. Eu pergunto se lá é chão. Ele fala “não, imagine, aqui na frente mesmo já começa a estrada de terra!! Daqui pra Alvorada é tudo chão!”. Que ótimo, eu penso. Mas o Mille é um bravo.
A estrada de chão não chega a ser ruim, e logo à frente passa a primeira entrada à direita, que eu evito. Mas a outra demorou muito a chegar, e eu vejo três homens na beira da estrada, esperando não sei o quê. Acho melhor perguntar e paro. Aqui começo a sentir um certo choque. Eu sinto medo de parar! Passava um pouco das 10 da manhã, horário em que mesmo em BH não se sente (tanto) medo... mas nos habituamos a desconfiar de tudo e, sobretudo, de todos. Não abro muito o vidro e percebo que é um pai e dois filhos adolescentes. Pergunto como chegar a Alvorada, e ele confirma que a próxima entrada é a correta. Agradeço e prossigo, e eles ficam na poeira do meu rastro. Então, me dou conta de que o ambiente em que eu estou é completamente diverso do meu habitat natural. É um lugar basicamente rural, antigo, que ainda não sofreu as conseqüências da urbanização. Conceição estava na fronteira: principalmente os jovens se comportam como os de Belo Horizonte, pode-se notar que as regiões mais pobres se assemelham um pouco às periferias da região metropolitana. Mas, saindo da cidade em direção ao Serro, naquela estrada de terra, entrei no “Brasil profundo”, à parte de tudo o que se passa nas urbes.
Por mais que se leia sobre isso, é difícil não sentir um estranhamento ao entrar nesse ambiente. A coisa fica mais evidente quando saí dessa estrada “principal” e entre na estrada vicinal, cujo único objetivo é levar à esquecida Alvorada de Minas. Não se vê nada nem ninguém. Não há pessoas, carros, quase não há gado.
Uma bifurcação mais à frente me deixa em dúvida. Não há ninguém para me orientar. Espero um pouco, com o carro ligado, completamente sem saber o que fazer (“minha nossa, e se o carro estragar aqui??” foi um dos pensamentos aterrorizantes que me acometeu, passarinho fora da gaiola). Enquanto pensava, comia o que sobrou do meu Ruffles, e ao mesmo tempo achava engraçado o quanto aquelas pseudo-batatas artificiais destoavam da situação, bem como o celular inútil e sem sinal.
Lá embaixo, vi um cachorro. “Deve ter gente”, pensei. De fato, do meio do mato saiu um senhor e uma criança. Fui até eles, um sol forte de inverno dissipando o frio. Parei o carro próximo. Eles me olhavam desconfiados, e eu mais ainda. Afinal, eu estou treinado para esperar assaltos em Belo Horizonte, não posso evitar. O velho parecia muito decrépito, e ficou me olhando e investigando o interior do carro empoeirado com curiosidade. O menino olhava mais de longe, com uma cara mais desconfiada ainda. A situação me deixou tenso, o velhinho não falava direito, mas me respondeu o caminho correto.
Mais um pouco de chão e Alvorada aparece. Uma igreja no topo de um monte, com algumas casas ao redor, escondidas entre muito verde. Tão perto da metrópole, mas tão isolada. A capilarização da rede de ocupação do território, pensei.
Assim que entrei na cidade, todos olharam. Por um momento pensei que era porque o carro estava muito sujo de terra e poeira, mas depois lembrei que todos os carros chegam assim e o estranho era a minha própria presença. Eu tinha que procurar o cartório da cidade. Algumas mulheres estavam nas janelas conversando e eu parei para perguntar se tem cartório na cidade (deveria ter perguntando “onde é o cartório?”, não ficaria tão evidente que eu pensava que não tem nada lá), e a resposta foi “sim, fica na praça!”. Óbvio.
A praça é onde fica a igreja (!), mas não achei cartório nenhum. Ao me ver passando em baixa velocidade, com cara de interrogação, as pessoas que estão na rua perguntam, cordialmente, se eu procuro por algo. Por fim, encontrei uma casa trancada em cuja fachada tinha uma placa “Cartório de notas e registro civil”. Mas trancada! Desci, com minha contínua cara de interrogação. Nisso, um senhor sobe a rua e diz “a dona já vai te atender!”.
De fato, em seguida sai da casa ao lado uma senhora, com cara de dona-de-casa, que parecia que estava fazendo o almoço. O cartório funciona numa casa antiga, e ela acumula funções de dona-de-casa e tabeliã, ou como quer que se chame quem tem cartório. Eu, me sentindo em outro país, expliquei cuidadosamente o que eu queria – as regras de convivência podem ser bastante diferentes.
Ela disse que faria a certidão que eu queria, mas que era pra eu voltar daí a um pouco. Não sabia o que fazer naquela cidade, mas saí andando. Quando eu cheguei à cidade, tinha sentido angústia. Sempre que estou nessa situação fico me imaginando naquele contexto, como se eu tivesse sido forçado a viver ali pra sempre. E isso me causou extrema angústia. Aquele lugar isolado, em si mesmo, no meio do nada, rural, com pouca gente... me senti sem ar. Depois, percebi que praquelas pessoas que nasceram ali, estava tudo bem. É claro que a influência do mundo “exterior” se faz sentir pelos meios eletrônicos de comunicação – TV e rádio, é claro. Mesmo porque eu pude ouvir uma adolescente, enquanto limpava a casa, ouvindo uma das músicas americanas da moda, dessas que tocam na Jovem Pan. E isso era contrastante com o lugar. Não sei até que ponto, com o passar do tempo, o que vai mudar; afinal, essa característica rural parece sobreviver somente porque ainda há pessoas de outros tempos. Tenho a impressão de que quando essas pessoas morrerem e os jovens de hoje forem os adultos, o isolamento vai fazer cada vez menos diferença, talvez o asfalto chegue, a internet...
Mas por enquanto não era nada disso. Por enquanto, um homem perguntou ao outro na rua se ainda tinha boi para vender, e ele informa que não, chegou atrasado: ontem mesmo matou dois e já vendeu tudo. Que Orkut que nada.

Tuesday, August 01, 2006

Ouvi por aí...


Ouvi por aí e começo a desconfiar que estas frases fazem certo sentido:

*Acho que vou votar na Heloísa Helena. (Com o atual quadro político não há muito o que esperar. Vamos ver o que acontece. )

*Meu dinheiro não dá pra nada. (Precisa comentar?)

*Aposto como ninguém sabe mais qual foi a última CPI. Os sanguessugas apareceram agora e pronto.

*O Corinthians perdeu, mas vai melhorar. (Se piorar é melhor extinguir o "timão").

*Dunga? (no comando da seleção). Sou mais a Branca de Neve.

*A bebida (alcóolica) está acabando comigo.


Até já. PH

Outro tempo

Moro em um pequeno prédio de um ainda pacato bairro de Belo Horizonte. Já vislumbramos uma quebra certa quebra neste ar bucólico com registros de assaltos, agressões e furtos de carros com mais frequência nos últimos anos. Sagrada Família é o nome do bairro e muitas ruas tem nomes de santos, como São Joaquim, São Lucas, São Roque e assim por dianta. O tom religioso está posto.
Então, para combinar o meu estilo pacato e certa santidade que me são próprios (escrevi esta frase apenas para provocar os amigos) optei por morar nesta região que traduz alguns costumes e atividades que parecem perdidos na trilha da chamada modernidade. Relações humanas cordiais, próximas e carinhosas ainda estão presentes com muita propriedade no cotidiano dos moradores do Sagrada Família.
Várias singularidades me chamam a atenção nas relações que as pessoas estabelecem no cotidiano deste bairro. Uma delas é a comunicação oral mais demorada, pausada, intensa. As pessoas conversam e vão além do simples "oi" ou de expressões corriqueiras como "com licença" e "Bom-dia" (que diga-se de passagem são extremamenmte importantes)". Basta dar uma volta no quarteirão e ver que as pessoas estão conversando. A internet parece não ter um peso tão forte aqui.
Da minha janela vejo os papos rolando diariamente. Parece que ninguém está atrasado ou cheio de tarefas por fazer. Esquisito, não? Aproxima-se das 14h e todos os dias um jovem grita: "Ô Rafael!!!" e o outro jovem sai da sua casa para conversarem na esquina a tarde toda com diversos outros colegas. São os guardiôes da rua.
Estes dias peguei um táxi para ir até uma agência dos correios. O carro leva exatamente 1min para chegar do ponto de atendimento até a minha casa. Mais rápido que a minha descida até a portaria. Os taxis pertencem a uma cooperativa de 30 condutores, todos nascidos e criados no bairro e o assunto das conversas sempre é o mesmo: a família que viu o bairro crescer, a praça que não existe mais, a mulher que vende empadas na esquina etc, etc. Se eu tivesse mais dinheiro só circularia de táxis com os motoristas da "Petrotaxi".
Como adoro conversas sobre mudanças no bairro e na cidade, vou logo começando o papo com a frase: "Você é morador do bairro?" (um condutor já havia me dito que todos eles são) e aí pronto, é só esperar a corrida terminar que até lá eles falam de família, do próprio carro, das ruas, das mulheres, futebol e deles mesmos.
Ontem quase perdi a paciência (ou o que me resta dela). Apressado para chegar ao correio, automaticamente falei a frase que inicia a minha conversa com os taxistas e o motorista falou tanto que diminiu a velocidade para terminar o assunto. Quando reforcei o pedido para acelerar um pouco, ele retrucou que "o correio não iria fechar naquele momento. Daria tempo demais para postar as minhas correspondências"."Pra que a pressa? Faz mal pra gente viver nesse corre-corre, finalizou". E tome papo. Desarmei o nevorsisimo.
Ao desembarcar ele percebeu que eu estava meio sem grana (sempre estou) e falou sem nenhum medo: "se tiver apertado me fala que passo depois na sua casa para pegar a grana". Agradeci a gentileza que nehum banco, financeira ou empresa de telefonia faz e optei por um desconto.
Este motorista morou 10 anos nos EUA, guarda a carteirinha internacional de motorista como um troféu e sempre que pego o seu táxi ele mostra o tal documento. "Nesta época ganhei muito dinheiro. Hoje já estou velho para estas aventuras", falou.
Informou que o bairro no qual moramos era uma grande fazenda e os lotes eram muito baratos, o que motivou que diversas famílias comprasem imóveis na área.
Em outros pequenos percursos de táxi outras histórias de vida e fatos comuns do dia-a-dia foram relatados. Volto ao assunto qualquer dia.

Para o Auro, sua sagrada família e Dona Joice, que gentilmente me apresentaram o bairro.