Espaço para escritos sobre as coisas miúdas do cotidiano. Aqui, ali, acolá temos surpresas na vivência diária e na observação do outro.
Sunday, November 28, 2010
Das urgências de cada um.
- Sim, minha filha. Tenho tomado todos os dias conforme orientação médica. Por que?
- Nada não...
Alguns minutos depois a mesma filha retoma o diálogo.
- Mãe, a senhora não quer fazer algo diferente hoje? Ficar em casa mesmo, deixar para ir ao mercadinho amanhã. O tempo está meio fechado...
- Minha filha, você me conhece muito bem e sabe que há mais de vinte anos eu faço as minhas unhas aqui em casa com a Dorinha todos os sábados e depois vou ao mercadinho do seu Bené, ali na esquina. O que está acontecendo?
- É que a manicure não pode vir hoje, mãe!
* Para a minha doce e vaidosa Marli Sales, que sumiu no Cerrado e deixou o meu coração solitário.
Saturday, December 05, 2009
Perdas e ilusões.

Perdi a ingenuidade da crença no canto das sereias burguesas de plantão, que insistem em manter a sua incompetência sob a cortina de uma organização política amparada na vibração instituida dos seus subalternos, sempre prontos a dizer sim. O mando necessita do falso riso e da necessidade para existir.
Percebi que ganhei outra dinâmica pessoal cheia de perdas, mas com a certeza de ganhos que lentamente se apresentam como consistentes e reais.
Perdi o que acreditava ser 'irmandade", "parceria" e ganhei o resgate e a solidez de antigas amizades. Começo a desconfiar que não perdemos aquilo que não tivemos.
Perdi Recife com seus tubarões (não só os marinhos) e ganhei o aprendizado em terras cearenses com muitos arranhões.
Perdi o bom-humor. Ganhei a reflexão. Me lamento um pouco com esta troca.
Perdi? Não sei.
Perdi a ilusão. Ganhei a ação.
Espero ganhar pelo menos um comentário do Arley sobre este texto.
Para aqueles que perdem um pouco do seu tempo lendo o meu blog.
Wednesday, July 22, 2009
Amigos, amigos, amigos. Texto de Francival Pires Pereira.

Todo este preâmbulo para falar com os meus amigos sobre o referido “Dia dos Amigos”. Começa que amigo que se preza está sempre de plantão, não tem folga. Para vocês terem uma idéia passei 17 anos sem encontrar um querido amigo de Belo Horizonte e este tempo e a distância em nada afetou a nossa amizade. Amigos se alegram com o sucesso dos amigos, com as suas conquistas, formam-se juntos, compram seus bens juntos. Coisa boa é ter amigo com casa na praia e outra na serra, sempre há um lugar diferente para passar o final de semana. E aqueles amigos com os quais passamos o Reveillon em Pernambuco, sensacional. Lembrei de um amigo queridíssimo, o pai do Lucas, que com as bênçãos do nosso Deus todo poderoso será tão maravilhoso quanto o seu pai. Há também aquela amiga de Croatá com duas filhas lindas, sem contar a minha comadre ( a minha afilhada completou 15 anos e ainda não fui visitá-la – ô padrinho sem futuro). Há também os amigos intelectuais com doutorado e tudo, só gente boa. Há os amigos da internet, da faculdade, do trabalho voluntário. Todos com suas particularidades, por isso são tão especiais. Há a amiga poetisa de Baturité com um enorme coração de mãe e de avó. Tenho uma amiga Carmelenga (autoridade indiscutível na hierarquia da Igreja Católica). Tenho amigos que oram por mim diariamente nos seus momentos de encontro com Deus. Tenho uma amiga especial que não pode ler por não poder enxergar, mais é a pessoa com a visão mais aguçada que conheço. Tenho amigos que nem conheço pessoalmente mais que são tão queridos. Há uma amiga de Brasília, bem pertinho daquela politicagem, arre...... Há uma amiga que é secretária de um véi (ô véi chato). Semana passada um amigão de São Paulo veio de férias com sua mãe de 80 anos – que dupla do barulho..... Há um amigão de São Paulo que só vive nos Estados Unidos e México, ô homem difícil de encontrar..... Há aqueles tão especialmente especiais (vixe) que não tem como comentar, lá pelas bandas do Henrique Jorge e João XXIII.
Mais o bom de tudo isso é que em graus diferenciados preciso muito destes amigos. Sem eles eu não seria o que sou. A eles devo a minha sanidade e alegria de viver. Como diria o meu amigo Roberto Carlos: “Como a abelha necessita de uma flor, eu preciso de vocês e desse amor.....”
Por último, mas não menos importante, o meu amigo de todas as horas, Jesus de Nazaré, cabra arretado de bom, gente da gente, camarada querido e carinhoso. Os meus amigos, cada um a seu modo, se parecem muito com Jesus, talvez seja por isso que os amo tanto.
Como não estou fazendo redação para vestibular vão relevando os possíveis erros de regência verbal ou concordância nominal, kkkkkk.
Sem mais. Com valorosos votos de estima e consideração.
Um beijão e um abração para todos vocês.
Tuesday, May 26, 2009
Quase
E eu aqui, quase esboçand0 um texto. Quase te dando um beijo. Quase esquecendo as mágoas.
Friday, April 10, 2009
Proximidade/Distanciamento: a moeda em questão.

Para os cristãos, Sexta-Feira Santa, também conhecida como Sexta-Feira da Paixão. Todo dia é dia da paixão. Nenhum dia é santo.
Neste dia alguém me pergunta por quais motivos estou tão distanciado de algumas pessoas que me são (ou eram) muito caras. Não respondo e penso nas moedas. Dois semblantes em uma mesma prensagem. Perspectivas diferentes aonde um lado jamais encontra o outro. Um lado, no entanto, não existe sem que o outro seja chamado à ordem. Os lados são opostos e apresentam um mesmo valor.
Para que houvesse uma aproximação mais aprofundada entre “cara” e “coroa” seria necessário derreter o material bruto que produz a moeda e assim ela deixaria de existir. “Cara” e “coroa” então perderiam as suas identidades, suas funções. Morreriam.
A morte as uniria. Melhor permanecerem em uso e distanciadas, assim se dizem tão próximas.
Os dois lados de uma mesma moeda só se aproximam porque nunca se encontram. Para que sair da padronização?
Os desencontros promovem encontros. Sei disto.
Para Teresa, de Niteroi. A distância entre as cidades nos aproxima via e-mails.
Friday, April 03, 2009
Texto do site www.ultimainstancia.uol.com.br
Tuesday, March 10, 2009
O direito a que, mesmo?
No entanto, a notícia chamou a atenção pela forma radical com que a Igreja Católica agiu neste caso. Só a “Excomunhão” não fazia sentido. Para completar a ação punitiva aos que acreditam nos valores cristãos e impedir qualquer debate mais elaborado sobre temas como violência, mulher, saúde pública e solidariedade, a Igreja reforçou através do seu representante local que não excomungou também o agressor que brutalmente engravidou a criança por considerar este um crime menor que o aborto, pois não feriu o direito á vida. O direito à vida é ferido por crimes de diversas ordens, inclusive o da imposição das ações individuais ou coletivas.
A comparação apresentada pela instituição religiosa foi no mínimo, lamentável. Porque não dizer, idiota? Mais uma vez a Igreja mostrou-se incapaz de dialogar com a sociedade de forma clara, inteligente e menos alienada. Mostrou traços da veia autoritária que insiste em preservar mesmo que a sociedade diga não a esta prática danosa no mundo atual.
A Igreja Católica optou pela imposição da força do jargão “Direito à Vida” em meio aos “Mortos de Cidadania” que lidavam com as conseqüências da violência cotidiana. Esperava-se da instituição religiosa – e não só dela – uma atitude mais respeitosa em relação ao sofrimento da família da menina que também não teve direito à vida por inteiro. O direito à dignidade mostrou-se ferido, o direito a escolhas sensatas apareceu anulado, o direito a ter direitos, perdido.
Há de se considerar ainda que o Estado apareceu, neste caso, como eficiente e solidário no atendimento a criança vítima do estupro ao mesmo tempo em que não conseguiu mostrar-se suficientemente habilidoso para evitar este e tantos outros crimes que recheiam as estatísticas diárias dos números da violência em nosso País. O Estado é contraditório, falho, mas democrático. Conseguimos dialogar com Ele.
O momento é de cobrar abortos de imposição de pensamentos únicos, recortados, impostos. Opinião não se impõe, se discute, se forma por meio de argumentos. A Igreja criou um peso para os pobres cristãos envolvidos na excomunhão midiática e não tomou nenhuma medida para que este fato pudesse ajudar na construção de um debate mais justo sobre temas diversos. É hora de a Igreja olhar para trás e rever alguns dos seus conceitos. Talvez vire sal. Melhor assim!
Saturday, January 24, 2009
Sanfonas, emoções e amizades (Parte Final)

“Ainda bem, que você vive comigo...” Vanessa da Matta avisa a Mené que Fausto está querendo falar com ele ao celular.
- Oi, Fausto. Tudo bem?
- Sim, mas não consegui encontrar o sanfoneiro que mora aqui pertinho da minha casa. Dizem que ele está fazendo shows pelo interior do estado. Agora não tem mais jeito. O negócio é ligar para o Cecêu e dizer que não vai dar mesmo.
- Nem pensar! Dei minha a minha palavra de que iria arranjar este sanfoneiro e não vou desistir.
- Se eu conseguir alguma coisa, volto a te ligar. Se não tiver nenhuma novidade, te encontro no cemitério mais tarde.
Mené levanta, toma café rapidamente e vai a lan house de Pedro, que fica ao lado da sua casa. Entra vagarosamente e ao ver o vizinho vai logo perguntando:
- Pedro, você conhece algum sanfoneiro?
- Vários! Acho que o Dominguinhos é o mais famoso de todos. Também gostava muito do Luiz Gonzaga. Este era bom demais. Quando tocava “Asa Branca” eu me emocionava. Mas porque a pergunta, Mené?
Mené passou cerca de um minuto sem fala e sem atitude. Exercitou a paciência em um tempo que parecia uma eternidade e didaticamente respondeu a Pedro:
- Pergunto se você conhece algum sanfoneiro que possa tocar uma música mais tarde em um evento. Sanfoneiro aqui do bairro ou da cidade.
Mené não queria dar mais detalhes e buscava encurtar a conversa. Pedro segue o diálogo: - Que evento? Quanto tempo? Conheço uns meninos ali...
- Um velório. Pronto, é um velório e é para tocar uma música apenas.
- Estás doido, Mené? Bebeu de novo? Dizem por aí que você não usa drogas. Tô te achando meio estranho...
Mené, que não perde a compostura com facilidade, lembra de Cecêu em Brasília e tem vontade de matá-lo por causa do pedido da homenagem póstuma ao avô. Olha firmemente para Pedro, fica calado e diz: - Então ligue para os tais meninos e veja se eles podem tocar “Asa Branca” no velório de hoje à tarde. Volto daqui a pouco para saber a resposta.
Em menos de dez minutos, Pedro anuncia a Mené que não deu certo “fechar o contrato” com ninguém e complementa: - Um dos meninos falou que só vai se for para tocar muitas músicas. E ele não vai sozinho, quer levar as bailarinas também. Promete que se fecharmos contrato com eles, pede para que elas ponham “uns panos a mais” nas roupas que vão usar.
Mené não sabe mais o que fazer, passa a pensar em suicídio e deixar um bilhete pedindo a Cecêu que providencie uma apresentação de “Dança do Ventre” para dinamizar o seu velório também. Volta para casa angustiado pois o tempo conspira contra a sanfona. Encontra a mãe e a irmã tomando café. Come mais um pedaço de tapioca e comenta com elas o seu dilema. A irmã é a primeira a falar:
- Não sei pra que tanto stress. Se não arranjar ninguém, a gente leva um aparelho de som, põe a música e tudo fica resolvido. É bom que “Asa Branca” foi gravada por muitos artistas. A gente pode fazer uma seleção bem legal e colocar um CD junto ao defunto.
Há um silêncio meio cômico, mas é necessário respeitar o sentimento de tristeza de Cecêu. A mãe de Mené também estava inspirada e diz:
- Meu filho, não se preocupe com isto. É só ver os classificados dos jornais que tem pessoas que fazem este tipo de apresentação. Vamos ligar?
Dona Ednira pega rapidamente o jornal e o telefone e liga para um grupo de artistas que anunciava este tipo de serviço no jornal. Enquanto ela liga, Mené amadurece a idéia de suicídio.
- Alô? Vocês tem sanfoneiro aí? Ah, tem? Que bom... preciso de um para tocar em um funeral hoje a tarde... Não, não é brincadeira, estou falando sério... Assim o senhor está me ofendendo...Não, não quero violino... É “Asa Branca”, o senhor não escutou direito?... Deveriam não anunciar serviços se não sabem atender bem. Até logo!
Dona Ednira fica quieta por alguns segundos, abre um sorriso tímido e diz:
- É meu filho, não deu certo. O homem riu muito e até debochou de mim. Tive vontade de rir também. Quem sabe se aceitássemos o violino. É lindo de morrer.
A irmã de Mené completa:
- Não sei porque não querem o CD. Não pode ser violão? Todo mundo sabe tocar violão. Tem que ser sanfona mesmo?Ô povo complicado. O homem já está morto. Mais vale a intenção...
Mené sente-se angustiado com o sentimento de que morreu na praia. Sequer liga para Cecêu para dizer que não pode atender ao seu pedido. “Sanfona”, “Sanfona”, “Sanfona”. Estas palavras não saem da sua cabeça. Resolve, então, ligar para a mãe do seu melhor amigo para confortá-la um pouco e dizer da intenção do seu filho em prestar uma homenagem ao pai dela. Ela agradece e diz que espera encontrá-lo no sepultamento do Vô Chico no final da tarde.
Ao cair da tarde chegava ao cemitério um pequeno grupo com uma sanfona, um triângulo e um pandeiro tocando “Asa Branca”. Ao lado dos músicos, um caixão com coroas e mensagens póstumas. Vô Chico seguia para a eternidade com um público bem numeroso. Uma multidão acompanhava a música, algumas pessoas dançavam, outras choravam, outras estranhavam tal atitude e Mené ficou surpreso ao ver tal movimento. Quem teria conseguido a homenagem ao Vô Chico que fora pedida a ele? Sentiu-se um inútil e martirizava-se por isto. Queria morrer também. Pouco tempo depois, a mãe de Cecêu revelaria o mistério:
- Meu filho, se você tivesse me ligado antes falando do desejo do Cecêu prestar a última homenagem ao meu pai, eu teria ligado logo para este pessoal que é quase da nossa família. Ainda bem que deu certo. Foi uma homenagem linda. Cecêu nunca vai esquecer que eu consegui os músicos para ele.
Ela deu uma olhadinha para Mené como quem diz: “Simplifica as coisas, meu filho. Simplifica”.
Para Majela e sua família de Itapajé/CE.
Monday, December 29, 2008
Nós
Existem nós que nunca se desfazem.
Existem nós que na verdade não são nós, somos nós.
Os nós cegos. Para que enxergá-los?
Nós, nós, nós...
Eu, eu, eu....
Você: um só. Um nó.
Para os que insistem em valorizar o "nós".
Monday, November 10, 2008
Sanfonas, amizades e emoções.

O celular de Mené toca. Era o seu melhor amigo, Alceu (Cecêu), que mora atualmente em Brasília (DF).
- Mené, o meu avô morreu agora à noite.
- Que pena, Cecêu! De qualquer forma foi um alívio, né?
- É...Dois meses na UTI... Muito sofrimento....
- Mené continua saboreando o pastel de carne-de-sol que começara a comer antes da ligação telefônica, muda a expressão facial e emocionado comenta com os amigos a notícia que acabara de receber.
Fausto comenta: "Logo no dia do meu aniversário?”. “Não vou esquecer disto nunca". A conversa telefônica entre Cecêu e Bené continua:
- Queria te pedir um favor, Mené...
- Pode falar...
- Queria prestar uma última homenagem ao meu vô Chico. Tem como você conseguir um sanfoneiro para tocar "Asa Branca" no sepultamento que irá ocorrer amanhã às 17h naquele cemitério central? “Asa Branca” era a música que ele mais gostava e adorava tocar uma sanfona. Praticamente fui criado pelo meu avô.
- Clario que sim, Cecêu, Deixe comigo! (Mené diz sempre “sim”, mesmo que saiba antecipadamente que não vai cumprir nada daquilo que prometeu). O sim tem o significado de “pode ser”, “quem sabe”.
- Fausto fica um pouco aborrecido com a notícia da morte de outra pessoa na sua festa de aniversário, mas o refrigerante de 2 litros que estava à mesa faz com que os ânimos se acalmem. A comilança de pastéis continua, mas o assunto agora é o pedido feito por Cecêu. A mobilização para que o Vô Chico descansasse em paz ao som de Luiz Gonzaga se iniciava ali.
- "Sanfoneiro para tocar em cemitério? Que homenagem mais doida!", disse Josimar.
- "Deixa de ser insensível, homem. Só porque no seu velório não vai ninguém, você não pode desprezar os desejos dos outros!", provoca Fausto. Josimar sai do cenário e deseja boa-sorte aos demais.
Fausto comenta: "Tá vendo? Nem para arranjar um sanfoneiro a gente pode contar com ele. Depois vai querer homenagem quando morrer". “Só pensa nele, blá, blá, blá...”.
Antes de comer outro pastel, agora de camarão, Mené liga para outro amigo.
- Heitor, tudo bem? Preciso de um sanfoneiro para tocar em um velório amanhã. Você conhece algum?
- "Não!”. "E amanhã eu acordo às seis horas para trabalhar. É só isso?". “Você não tem outros amigos para ligar a esta hora?”. Nem a morte sensibiliza Heitor, pensou Mené.
Fausto, o aniversariante ferido pela notícia de morte do avô do outro, afirma: "pertinho lá de casa tem um rapaz que é sanfoneiro. Deixe que falo com ele amanhã". “Ele vai, com certeza!”.
Mené ri e vai para casa pensando que o dilema estava resolvido e que assim como o finado, poderia dormir em paz visto que o pedido de favor do amigo estava atendido. A peregrinação pela sanfona apenas começava....
(Continua em poucos dias)
Para D.Ângela e D. Adelina, que me fazem crer que saudades não mata ninguém.
Friday, September 19, 2008
Chutando

Tuesday, July 29, 2008
Pendências

Tuesday, May 06, 2008
Travestis, travestido, mídia e cidade: algumas reflexões.

Domingo, 4 de maio de 2008. No final da noite, o maior canal de TV aberta do país exibe um programa de “variedades” com as principais notícias do Brasil e do Mundo. Temas requentados estão na ordem do dia e mais uma tragédia na região Norte do país surge como notícia instantânea, que pode esperar a sua vez de ganhar mais espaço. Quem sabe se a quantidade de vítimas fatais aumentar?
O grande momento do programa seria a entrevista (!?) “exclusiva” com um dos maiores jogadores de futebol do mundo, que falaria sobre o seu envolvimento com travestis em um episódio, no mínimo curioso, ocorrido na semana anterior á veiculação do programa televisivo.
Milhões de telespectadores estavam na expectativa de prestigiar o “momento especial” prometido pela emissora. A truncada discussão sobre algumas questões que envolvem direito, cidadania e leis estava posta. A qualidade da formação de alguns jornalistas, idem.
O entrevistado, travestido unicamente de Embaixador da Unicef, de atleta competente e de pessoa responsável, aparece como um menino que comeu mel pela primeira vez, e ao se lambuzar teve que dar satisfação à sociedade que instituiu que o mel – assim como leite, a cachaça, as drogas e a prostituição – não é para todos. Para os devassos, os irresponsáveis, os boêmios, os que sobram da sociedade moralista, a aventura de quebrar regras aparece como mais tentadora, possível de ser realizada.
Assim, para salvar o menino que supostamente sofreu chantagem, extorsão e foi “enganado” pelos devassos de plantão, era necessário dar nova roupagem ao fato, deixar a aparência falar mais alto do que a essência. O bem sempre vence o mal, diz a tradição.
A primeira idéia a ser posta em prática era deixar claro, através da grande mídia (sensacionalista ou não), que travestis são danosos à sociedade. Roubam, praticam chantagens, fazem sexo em troca de dinheiro e transformam as ruas em espaços tidos como imorais. Travestis não podem ser percebidos como gente comum.
Em contrapartida, era necessário mostrar que o Fenômeno não tem indício algum de lucidez quando não percebe que os territórios da prostituição no Rio de Janeiro, assim como nas grandes cidades, são demarcados, instituídos, apropriados. Os territórios demarcados são como prateleiras de supermercados: sabemos exatamente onde encontrar cada produto. Aqui, acolá, há alguma coisa fora da ordem, mas há uma organização formal que nos dá garantias de que encontraremos o que desejamos.
Na cidade encontramos ruas e locais que são predominantemente ocupados por travestis, outros por prostitutas, outros por garotos de programas. Em algumas cidades encontramos a chamada “Cracolândia”, referência a um dos usos que se faz deste local. O bom menino, que conhece bem a capital do Rio de Janeiro, queria contratar profissionais do sexo e o fez, sabia onde encontra-los. Diz que foi a maior besteira que fez na vida pessoal, o que não vem ao caso neste momento. As ruas são perigosas mesmo, pressupõem transgressões, usos e abusos.
Ronaldo travestiu-se de gente comum, que algumas vezes infringe as leis e afronta a sociedade carregada de moralismos e hipocrisias. Ronaldo anunciou um gol e não o concretizou de fato. Viu tudo como um erro e ao que parece, acertou em alguns pontos. Colocou a sociedade brasileira a pensar, mesmo que de forma caricatural e jocosa, que a prostituição ronda as ruas das metrópoles e isto é parte da dinâmica urbana, mesmo que as leis coloquem esta prática como crime. Existem leis que se transformam em abstrações, são teóricas mesmo, não “pegam”. Salvo um ou outro jornal, não foi visto nenhuma menção ao fato do jogador reconhecido internacionalmente ter cometido delito, previsto em lei. A ênfase midiática foi na “escolha” do jogador por travestis. As fantasias sexuais devem obediência às convenções sociais? Ronaldo responde que sim e anuncia que a chamada “pegação” de rua é perigosa. .
A prostituição de alto luxo é mais silenciosa, menos midiática, mais organizada e cara. Pena que alguns locais que fomentavam esta rede de contatos hoje estejam fechados. Ao Fenômeno restou a rua, onde quem reina é quem dela melhor se apropria. O barato saiu caro.
A cidade apedrejou o pobre (sentido figurado, diga-se de passagem) garoto que colocou em xeque valores morais, leis, desejos pessoais e, claro, o poder da imagem pessoal. Ronaldo quase anunciou que a sociedade precisa repensar os seus valores arcaicos em pleno Século XXI. Quem sabe a cidade não imita o travestido e o pede desculpas também?
Tuesday, April 08, 2008
Respirando Mirtes
Pois bem, quando estava prestes a sair de casa, entre fechar uma janela e escolher uma camisa apropriada para este dia de outono em Minas Gerais, vejo uma foto da Mirtes, uma das mulheres mais humanas que conheço. Na foto ela está ao lado da minha mãe em uma daquelas poses clássicas para fotos: estão abraçadas, sorrindo, no meio de uma sala de uma instituição onde são desenvolvidos trabalhos voluntários . Suspeito que as duas deram um retoque nos cabelos antes do famoso “click”. Estão lindas!
Saí para o cinema relembrando os muitos momentos em que Mirtes (durante algum tempo a chamávamos de “Mei Shu”, pois ela fazia parte da Igreja Messiânica) me ensinou a perceber que a vida é mais que mera adequação a um cotidiano estabelecido cheio de atividades por cumprir. Ela sempre afirmava que a vida é sinônimo de compromisso com os outros. Gostaria de fazer deste princípio uma prática mais real.
Esta mulher, que saía da lógica padronizada das futilidades de plantão, me convidava para ouvirmos juntos, em sua casa, música clássica e canções maravilhosas entoadas por Elis Regina, Gal, Milton Nascimento, Zizi Possi e tantos outros. Não, não era esta audição “em passant” que vemos hoje, onde as pessoas não têm mais paciência de ouvir a música até o final. Ouvíamos Caetano entoar “Odara, Odara” quantas vezes achássemos que fosse conveniente. Eu, assim como alguns outros amigos dela, partilhávamos a audição. Partilhávamos o coração. Partilhar é alma do compromisso com o outro.
Ao chegar ao cinema hoje à tarde, vi no mostruário de uma livraria o livro “Em algum lugar do passado”, obra que inspirou um filme que assisti com a Mirtes e que a música-tema me emociona como se a estivesse ouvindo pela primeira vez. Pedi ao vendedor para ver a obra em edição mais recente e um desapontamento instantâneo me tomou: o livro estava envolto em um pedaço de plástico, destes mais ordinários. A impressão que tive foi que aquilo não era livro, era canudinho de Mac Donald´s, cerveja quente, fósforo molhado, torneira vazando. Tudo, menos livro.
Na estante da casa da amiga que tenho muitas saudades os livros cheiravam a magia, a contato com a leitura, a simplicidade dos usos. Fernando Pessoa estava vizinho à Clarice Lispector, que ás vezes ficava quieta em frente ao Fernando Sabino, que um pouco cansado de tanto o importunarem, apoiava-se no velho Marx que insistia em dizer que não podemos esquecê-lo. Todos pareciam nos esperar. Todos, evidentemente, ao lado de bons vinhos. Nada de avisos como “Não toque!”, “Coloque o livro no lugar!” ou “Favor não tirar o plástico”. A estante da amizade tinha uma regra: livros são livros.
Na livraria, passo ainda os olhos por outros livros e vejo uma coletânea de textos sobre Edith Piaf. A foto da grande cantora estava estampada na capa. Aos que acreditam em “viagem fora do corpo”, posso assegurar que fui à Fortaleza, dei um beijo carinhoso na Mirtes e disse: “Obrigado por tudo!”.
Obrigado por me apresentar aos Movimentos Sociais quando eu ainda era um mero estudante de Sociologia; pelas inúmeras viagens a Aracati, Canoa Quebrada e Icapuí, quando eram lugares de representação menos turística do que os dias atuais; pelos milhares de “johreis”, que se não purificaram a minha alma, me ensinaram a parar um pouco no turbilhão da vida urbana; por me mostrar que além da industrial cultura massificante, havia outras opções de artes; por me deixar freqüentar o seu lar.
Obrigado por me fazer acreditar na absurda idéia de que os amigos, mesmo quietos, fisicamente distantes e sem uma comunicação mais freqüente, estão ao nosso lado, prontos, serenos, acolhedores.
Hoje estou respirando Mirtes. Hoje estou transpirando amizade. Hoje admiro Roberto Carlos.
Saturday, February 16, 2008
Lupa: outros olhares sobre os lugares por onde passamos.
É com esta amiga que tenho dialogado bastante nos últimos meses e hoje trabalhamos juntos em uma mesma faculdade. Com a nossa proximidade, inclusive a de moradia, eu e a minha amiga saímos para alguns locais de Belo Horizonte nestas férias. Resolvemos, então, deixar algumas impressões sobre os lugares pelos quais passamos. Ir além dos mesmos comentários que os jornalistas fazem quando vão a cinemas, padarias, teatros e praças. Resolvemos observar com mais profundidade os lugares que passamos. Acho que os leitores vão gostar da nossa proposta. Assim, comentamos agora algumas impressões que tivemos sobre o supermercado Extra-Belvedere, uma cafeteria chamada Sagrado e outra chamada Santa Sofia. Todos os estabelecimentos estão localizados na chamada “área nobre” de BH.
Era quase final de dezembro do ano passado. Havia um trabalho de campo por fazer com os alunos da faculdade e combinamos que o ônibus que nos levaria até a cidade de Ouro Preto ficaria estacionado no supermercado (hipermercado?) Extra-Belvedere. O horário de saída estava marcado para 7:30h. Ingenuamente, combinamos que tomaríamos um café ou faríamos um lanche no Extra que funciona 24h.
Surpresa geral: para chegar ao centro de compras, fizemos logo uma pequena caminhada, pois as esteiras rolantes não rolavam, estavam paradas, desligadas. Lusandra seguia no ritmo da lebre e eu no ritmo da tartaruga. Havia mais uma lebre conosco: o coordenador do curso que iria conosco para a atividade com os alunos. Lá estavam, então, duas lebres e uma tartaruga prontos para fazerem um lanche matinal antes de um dia de trabalho. Esteira rolante funcionando não havia.
Lussandra e o coordenador do curso sugeriram que eu utilizasse um dos carrinhos de compras projetados para pessoas com alguma mobilidade motora. Havia três disponíveis. Escolhi o mais novinho e me senti o Fernando Allonso do dia. Pensei em deixar as duas lebres no chinelo e pegar o meu café bem antes deles. Como sou criativo, ainda pensei em dizer: “hummmm, o café estava ótimo. Espero por vocês no caixa”. Liguei o carrinho de compras e nada aconteceu. Estava sem bateria porque não ligaram uma tomada na rede elétrica para colocar o carrinho para funcionar. Testamos os carrinhos 2 e 3 e nada. Que falta dois dedos e um pouco de iniciativa fazem. Ninguém do estabelecimento comercial teve a iniciativa de ligar uma tomada e deixar três carrinhos “especiais” prontos para o uso. Juntos, lebres e tartaruga olharam com estranheza para aquela situação. Ninguém percebeu que era necessário recarregar os tais carrinhos. A bateria da competência profissional falhou geral. Era muito cedo para travarmos aquele diálogo crítico com o responsável por aquela situação. Fomos em busca do café.
Ao partirmos para o nosso propósito, percebemos que ali não havia opção para este tipo de procura em uma manhã de sábado. Havia apenas uma lanchonete funcionando e só poderíamos pegar iogurtes, sucos ou pães nas prateleiras do próprio supermercado. Queríamos pão-de-queijo quentinho, café com leite, manteiga, torradas, chá e quem sabe, um pedaço de bolo. Erramos de lugar. Fizemos a nossa caminhada matinal, descemos de novo a esteira parada e os carrinhos de compras permaneciam lá sem carga alguma na sua bateria. Precisávamos de um lugar extra para tomarmos café.
O projeto LUPA teve as seguintes impressões durante a nossa passagem por lá: neste centro de compras a preocupação com a acessibilidade parece não funcionar em tempo integral; a lanchonete poderia ser que nem a girafa, olhar mais do alto e oferecer, além de refrigerantes, um café ou uma vitamina aos seus clientes no início da manhã.
Sobre as cafeterias que visitamos, falo no próximo texto. Este se estendeu mais do que planejado inicialmente.
Para Dona Ângela, que produz o melhor café que tomo aqui em BH.
Wednesday, February 06, 2008
AA, BB, CVV...

Em meados do mês de janeiro deste ano, a maior emissora de TV do País anunciava mais uma edição de um programa que se propõe a “vigiar” ou “monitorar” através de câmeras instaladas em uma confortável casa, a vida cotidiana(?) e fútil de diferentes pessoas que foram selecionadas por seus “talentos” e “qualidades”. Os dotes físicos, com certeza, são valorizados com bastante cuidado na escolha destes candidatos. A casa que não contempla a diversidade brasileira (não existem velhos, portadores de deficiência, obesos, estrangeiros etc.), é uma caricatura mal feita daquilo que entendo como programa de entretenimento. O programa agride aos que esperam da TV algo mais do que mera exibição de corpos e divulgação de produtos de consumo rápido os mais diversos. Saudades do Chacrinha!
Um prêmio sedutor em dinheiro para o ganhador do programa e uma série de patrocinadores que vão de um grande banco privado a uma das maiores fabricantes de automóveis do Brasil mostram o tamanho do investimento em um programa como este. Não há futilidades televisivas sem grandes patrocínios. Não haveria grandes empresas, incluindo-se aí bancos e montadoras de veículos, se houvesse clientela mais exigente, mais amadurecida, mesmo.
Uma curiosidade ainda me deixa inquieto neste início de BBB 8ª edição: a pouca discussão midiática sobre o tema. Na sua primeira versão, especialistas de diversas áreas escreveram sobre este tipo de programa e a discussão ganhou um aprofundamento maior. Talvez não tenhamos paciência, nem tempo, para dialogar sobre um mesmo tema por diversos anos. Também estamos acostumados a discutir os temas apenas na época em que eles estão em plena evidência. Creio que estou atrasado neste momento.
Pois bem, as letras que são bastante conhecidas e caracterizam e identificam o programa televisivo BBB são anunciadas, vendidas, patenteadas e mostram que o capital quando quer, pode apostar todo o seu potencial de investimento em algo que pressuponha lucro imediato e certo. Não é a toa que o mercado também vive de letrinhas: CDC, OP, BM&F, UFIR e outras.
Outras letras, porém, mostram que a sociedade poderia contemplar com mais profundidade outras propostas, mesmo que a mídia as deixem de fora do horário nobre. O BBB poderia ser momentaneamente esquecido e nos fazer refletir sobre outras abreviações de nomes que não viraram marketing instantâneo, mas tem uma história por contar, como o AA.
Ser um Ex-AA é mais do que sair da casa, é manter compromisso integral com os que partilharam de um mesmo dilema, às vezes, anos a fio. É mostrar que a entrada e a saída são ganhos. É ser reconhecido pelos fracassos e sucessos.
O AA faz também a sua seleção para o acolhimento dos pretendentes a entrarem na sua “casa” e divulgarem as suas histórias. É uma seleção amorosa, onde atributos como idade, aparência física ou situação econômica não tem importância alguma. O prêmio do AA é mais enigmático, sem tempo certo para ser entregue. O melhor de tudo é que ele é sempre partilhado. Diferente do BBB ode as brigas significam que “o jogo” está pegando fogo, as outras letras optam pela paz. Não sei se o AA tem patrocínio sequer para divulgar os seus serviços. Bancos, montadoras de automóveis, emissoras de TV e tantas outras empresas talvez não vejam em outras letras investimentos necessários. Falo de investimento financeiro, mesmo. O passo organizacional para o funcionamento da instituição que dialoga com pessoas que sofrem os problemas do alcoolismo está consolidado, mas poderia ir muito mais além.
A mídia, assim como as grandes empresas poderiam ainda ampliar a sua visão comercial divulgando e apoiando (quem sabe em horário nobre), além do BBB, o CVV. Um serviço de apoio a pessoas que buscam amparo emocional através de ligações telefônicas. A valorização da vida parece se perder quando um projeto como este necessita constantemente de voluntários para que possa funcionar plenamente. O CVV necessita mais do que voluntários, necessita de investimentos financeiros, de reconhecimento social mais amplo, de muitos telefones como os que as empresas disponibilizam para que os curiosos possam ouvir as “conversas” dos BBB que estão “confinados”. A TV confina a todos?
O maior faturamento do verão de uma emissora de TV e dos seus anunciantes se concentra em um programa que ganhou identidade com as suas letras e a sua futilidade característica. O maior ganho que a sociedade poderia ter neste momento, talvez fosse perceber que o alfabeto da cidadania e das escolhas midiáticas vai além de algumas letras. Podemos mudar de canal, podemos tomar atitudes, podemos pensar sobre o assunto. As grandes empresas idem. Daqui a pouco elas estarão também no “paredão” de uma sociedade que não se vê apenas no BBB, mas no MST, no GAPA, na CNBB, na OAB...
Para o leitor mais distraído, informo que a siglas AA e CVV representam respectivamente: Alcoólicos Anônimos e Centro de valorização da Vida. BBB todos sabem o que não significa.
Thursday, July 26, 2007
"Pan, tam, por pan, tam"
Não faz muito tempo, a escritora e filósofa Marilena Chauí, afirmou que não mais iria acompanhar as notícias veiculadas pela grande mídia. Alegou, salvo engano, que a informação é manipulada e não acrescida de um aprofundamento mais elaborado sobre os temas em pauta. Parece que ela tinha razão.
Estamos hoje, totalmente preenchidos de notícias sobre o maior acidente aéreo da história brasileira. O vôo da TAM, com os seus 199 mortos, a pista escorregadia do aeroporto de Conginhas, a descoberta da caixa preta, os relatos das famílias, o incêndio e as possíveis causas da pane. Muita informação.
Ao mesmo tempo, os informes sobre os Jogos Pan Americanos, realizados no Rio de Janeiro, chegam incessantemente ao nosso conhecimento de maneiras diversas. A contagem das medalhas, brigas ocorridas nos bastidores, especulação na venda dos ingressos para os jogos, os possíveis gastos a mais na construção da Vila Olímpica e, claro, as vais que o Presidente Lula recebeu na festa de abertura do evento. Muito se divulgou sobre o evento, pouco se discutiu. Ficou algo meio “tam, pan, por tam, pan”.
Estes dois fatos distintos ganharam a mídia pelo forte apelo popular que cada um deles despertou. A grande mídia não soube, no entanto, interpretá-los com maturidade. Faltou fomentar um debate mais elaborado sobre temas que certamente os dois eventos contemplariam: interesses econômicos, investimentos e distribuição de recursos públicos, sentimento de nacionalidade, críticas aos projetos das obras, assim como seus possíveis ganhos.
Manchetes com letras chamativas, estampadas esta semana em jornais, páginas internéticas e revistas senanais de notícias diziam que “Familiares das vítimas denunciam que os mais ricos e conhecidos são identificados primeiro”. A denúncia virou manchete, nada mais. Um tema para páginas e mais páginas de aprofundamento, discussão e cobrança em uma sociedade apartada como a nossa. Os meios de comunicação deixaram escapar esta possibilidade. A morte apareceu igualmente para todos, o reconhecimento dos corpos, não. A mídia apareceu igualmente para todos. Não houve reconhecimento individual. Vale citar duas exceções, o programa Observatório da Imprensa e o Jornal da Cultura, programas exibidos por emissoras públicas.
Também esperava, eu, pobre leitor, telespectador, ouvinte, que o trágico episódio resgatasse a memória coletiva reconstruindo o debate perdido sobre episódios anteriores com as mesmas características. Como andam as investigações, processos, indenizações, comportamento empresarial e o que mudou nas atitudes governamentais e privadas depois do acidente da GOL. Que outra aeronave caiu, há dez meses, todos nós sabemos. Talvez só os familiares das vítimas daquele vôo ainda discutam o tema, cobrem ações efetivas dos responsáveis. Faltou a continuação do debate público sobre algo que continua atual.
Outro pecado cometido pelos órgãos de imprensa na cobertura do vôo da TAM, foi dar voz a muitos sem estabelecer critérios para isto. Explicar quem são estas pessoas e que sentido tem veicular o discurso delas, foi algo que não apareceu. Confundiu ainda mais a opinião pública. Todo mundo falou: o diretor da ANAC, o Presidente da INFRAERO, comandantes das aeronaves, coordenadores do CONAR, tenentes do Corpo de Bombeiros, representante do Ministério Público, parlamentares, especialistas em aviação, o governo, a imprensa, os donos das companhias aéreas, os moradores de São Paulo, todo mundo falou. Só faltou a Marta, que relaxou e calou. Era uma das pessoas que deveria ser ouvida em relação ao episódio.
Não houve explicações mais detalhadas para quem acompanha as notícias, do que é a ANAC, as suas funções, os poderes que têm etc. E assim vieram o CONAR, a INFRAERO, o DAC e tantos outros. Não há debates mais elaborados sem esclarecimentos prévios do que seja cada órgão deste.
Com tantas vozes, tantas opiniões que duravam pouco mais de alguns minutos na mídia, é pouco provável que o consumidor (alguns chamam de cidadão) comum, saiba como funciona o sistema aéreo no País. Há um verdadeiro apagão: o de informações claras, precisas, amadurecidas. Todos já sabemos que houve um desastre, onde ocorreu, o número de mortos. O resto, como cobertura jornalística, foi um desastre. Vou ali comer um pão-de-queijo e discutir, tintin por tintin, com os colegas de quem é a culpa pelo acidente. Acho que é do governo. Depois falaremos do PAN, que só sabemos dos quadros de medalhas. Que vai dar Brasil, vai!
Tuesday, June 19, 2007
Dois gramas: ou o encontro de Vanderley com Lili
Ele, homem inteligente, estatura mediana, feições asiáticas, um pouco calvo. Parece ter uns quarenta e cinco, no máximo, cinqüenta anos. É petroleiro e sempre se veste formalmente quando não está em atividades profissionais. Divorciado, pai de três filhos e bastante religioso. Chama-se Vanderley, uma homenagem que os pais fizeram ao cantor Vanderley Cardoso, famoso até alguns anos atrás.
Van, como é conhecido pelos amigos mais íntimos, vai até o laboratório em que Lili trabalha. Precisa fazer um exame chamado de “Espermograma” – coleta de sêmen em um pequeno (não sei se é tão pequeno assim) recipiente de vidro para ser analisado pelo laboratório. Para isto, é necessário que ocorra o manuseio do órgão genital masculino pelo próprio paciente. Não vou dizer aqui que é a famosa “punheta”, “masturbação”, “bronha” etc, porque pode haver menores lendo o blog. O fato é que Van, como disse a nossa Ministra Marta Suplicy, deveria “relaxar e gozar”. Não nos aeroportos, mas na salinha de um laboratório por volta das 6:30h. Teria que trabalhar depois. Quem falou que vida de petroleiro é mole?
Lili – “Bom dia, senhor. Posso ajuda-lo?”.
Van – “Eh...sim...preciso fazer este exame. É a primeira vez que faço. Estou meio sem jeito, sabe?”.Rapidamente dá uma olhada nos seios de Lili e pensa: “não será tão difícil assim enfrentar este tipo de exame”.
Lili da uma olhadinha no pedido do médico e fala: “É, primeira vez é sempre assim mesmo. Já vi muitas pessoas com medo de enfrentar este procedimento quando ainda não o fizeram”. “O senhor nunca fez este tipo de exame antes?”, pergunta Lili com firmeza. “Tem certeza?”. Reforça a impostação da voz sem perder a delicadeza que lhe é peculiar. “É tão comum as pessoas fazerem este tipo de exame pelo menos uma vez no ano”, completou ela.
Van, meio sem jeito, se sentindo meio estranho por não ter se masturbado em laboratório pelo menos uma vez ao ano nas últimas décadas, responde:“sim, é a minha primeira vez em laboratório”. Abre um sorriso com ar de sedução para a jovem Lili e pensa: “acho que faz parte da estratégia de atendimento desta empresa apimentar um pouco o papo antes do exame”. Fica feliz com a possibilidade de se aproximar mais da agora atraente e sexy Lili.
Lili: - “Então, vamos?”. “Não se preocupe que eu conduzo tudo e o senhor pode relaxar que tudo dá certo”.
Van: - “Pode me chamar de você. Fica mais informal e vou perdendo o medo”. Agora Van sentia-se o verdadeiro garanhão mineiro. Iria comer quieto. Fantasiava o exame de diversas formas. “Será que ela vai demorar muito?”, “Existem outras atendentes de plantão?”, “Ah, vou contar tudo para os meus melhores amigos”, pensava o paciente nos pouco segundos em que se deslocava da sala de atendimento à estreita salinha de coleta de material.
Lili – “Está mais calmo, Vanderley?”. Sem querer, a doce Lili o chamou informalmente pelo nome. Nada de senhor, nome completo etc. Ela o chamou de Vanderley. Isto mesmo, Vanderley, com todas as letras. A boca carnuda de Lili havia falado: Vanderley. Era um convite ao sexo. Esperaria a hora certa.
Van: - “Pode me chamar de Van”. Lili o olhou com jeito esquisito.
Lili: - “Como é a sua primeira vez, vou usar esta borrachinha aqui para facilitar o “pega” do material”.
Van pensava então que Lili era mais libertina do que qualquer atendente que já conhecera. Borrachinha para pegar o material? Será técnica nova? Nunca ouviu falado nisto antes. Perdia o medo da primeira vez no laboratório para colher sêmen. Sempre ouvia comentários que havia revistas de sexo, fotos pornográfica, mas uma Lili diabólica, sexy e míope para facilitar a coleta do material era uma idéia pra lá de inovadora. Não faria objeções a tais novidades.
Lili continua: - “Se você sentir qualquer alteração mais significativa no seu corpo, pode me falar, estou aqui para isto mesmo.”. “Caso seja necessário, eu colho o material em uma cama específica para isto. Prefere a cama ou a cadeira?”.
Van estava ficando louco. Pensava em não ir trabalhar depois de todo o exame feito pois a produção de combustíveis não depende apenas dele, carros continuariam rodando. Convidaria Lili para almoçar e dependendo da qualidade do serviço realizado por ela, a pediria em namoro naquela mesma semana. “Ela me chamou de você pela segunda vez, acho que já viu as alterações significativas no meu corpo e me pede para falar sobre elas. Ainda me oferece a cama ou a cadeira como opções. Estou sonhando...”.
Lili, já perdendo um pouco a paciência pergunta: - “prefere a cama ou a cadeira?”.
Van¨- “A cadeira”, respondeu olhando-a firmemente . Não sabia se era a melhor escolha, mas optou pela cadeira.
Lili: - “Sei que você está meio apreensivo, mas é rapidinho”, explicou ela. “Se quiser colocar a cadeira mais pra frente, pode ficar à vontade”. Van não via o momento de tudo começar de fato. Cadeira, borracha, Lili e seus seios fartos, sua disposição de satisfazer o paciente. Ainda bem que tinha um bom plano de saúde. Não esperava que a ação fosse rapidinha. Daria trabalho a Lili.
Lili: - “Comeu algo antes de vir pra cá?”. “Bebeu ontem?”. “Teve relações sexuais nas últimas 24 horas?.
Van: - “Não, mas quero fazer tudo isto daqui a pouco. Comer bem, beber um bom vinho e sair com alguém especial como você”.
Lili sentiu-se meio sem jeito, mas gostou da “cantada” do Van. Disse a ele que não há coletas de sangue sem o jejum de algumas horas.
Van: - “O que? Coleta de sangue? Veja o que está escrito no pedido médico”.
Lili, um pouco apreensiva, ajeita os óculos, aproxima o papel com o pedido médico e lê “Espermograma”. Havia entendido “Hemograma”. Desculpa-se com o Sr. Vanderley e grita sem a menor cerimônia: “Luizão, traz as revistas que este paciente vai fazer aquele exame”. Completa: “É por ali, senhor, naquela sala. O nosso atendente o explicará os procedimentos. Sinta-se à vontade”.
Agradeço a Eliana, uma Consultora Empresarial que trabalha com treinamento profissional e imagem de empresas, por ter me contado o fio condutor deste fato. Fiz algumas alterações.
Para Rodrigo, que do seu esperma nasceu Catherine.
Friday, April 13, 2007
Aeroportos - crônica do Thiago Machado

Eu adoro aeroportos.
Também adoro estações rodoviárias (por mais estigmatizadas que sejam) e ferroviárias (por mais decadentes, no Brasil).
Quando eu era pequeno, e viajar de avião era uma coisa muito distante da minha realidade, a estação rodoviária representava a ligação com o mundo conhecido. Significava a porta de entrada para mundos distantes. Quando fui crescendo, comecei a me sentir fascinado por todos aqueles destinos luminosos expostos. Os mapas com toda a rede de determinada companhia de ônibus. Ver listados nomes tão distantes de Belo Horizonte como Ji-Paraná, Belém, Sinop, Mossoró, Juazeiro do Norte, Assunção. Aliás, a coisa que eu mais gosto é, na rodoviária, ir passando por todas as listas de destinos. Ver todos aqueles nomes de cidades e imaginar que dali se vai pra todos os lugares.
E, quando em outra cidade, ver as listas de destinos para outros lugares, então insuspeitados.
Aí mais tarde descobri os aeroportos. Quando eu era pequeno, morava perto do aeroporto da Pampulha. Andava de bicicleta na praça Bagatelle e às vezes brincávamos no saguão do aeroporto. Mas aquele lugar pra mim não tinha muito significado, e nós costumávamos ficar no terraço vendo os aviões pousarem e decolarem. E nos anos 80, meu pai nos levou a Confins para ver o grande aeroporto recém-inaugurado, e me lembro que foi um passeio incrível.
Mas, mais tarde, comecei também a ficar fascinado pelos grandes painéis de chegadas e partidas. Principalmente quando descobri os aeroportos verdadeiramente internacionais. E então, as listas de cidades de todo o mundo me hipnotizam. O mundo parece menor, quando se sabe que dali se vai para qualquer ponto do planeta.
Thursday, February 15, 2007
A insinuação da mídia e a desconfiguração do debate. Todos perdem.
A possível impunidade dos assassinos, presente em muitos momentos da nossa história (quem não lembra de pelo menos um caso?), foi o primeiro assunto veiculado pela mídia como necessário a ser debatido após o choque da morte do menino carioca. Alie-se a este ponto, o debate sobre a redução da maioridade penal.
João não pode ser apenas mais um número nas estatísticas da escalada da violência que assola o nosso país. Julgar os culpados mostra que a disposição pela luta não se extinguiu na nossa sociedade. Um alento em tempos tão sóbrios.
Para discutir o tema da impunidade e da presença da juventude em crimes bárbaros, parte significativa da imprensa desconsiderou neste episódio questões importantes e propícias para o debate coletivo mais aprofundado.
Um dos pecados da mídia nacional foi passar ao largo que o Estatuto da Criança e do Adolescente, o chamado ECA, foi um ganho social importante que impediu muitas vezes que diversos Joãos, Antonios, Willians, Marlis, Pedros e Marinas se tornassem números da perversa estatística de mortes infantis no Brasil. Sem o ECA, possíveis impunidades estariam colocadas a mais nos índices de violência do Brasil. Mortes, certamente ocorreriam.
O ECA foi citado e apresentado por diversos meios de comunicação no recente episodio, apenas como um instrumento capaz de livrar os jovens e crianças da punição mais severa pelos seus crimes ou desobediência as leis. O ECA é mais do que isto! Cumpre a imprensa o seu papel de incentivar a sociedade a unir-se em favor de uma ampla cobrança para que a impunidade não seja parte da nossa vida cotidiana.
Punição para os que não conseguem colocar em prática direitos como a liberdade de expressão para os adolescentes e zelar pela dignidade das crianças! Esta convocação seria uma auto-punição?
Os direitos das crianças e dos adolescentes, assim como os dos idosos, dos deficientes físicos, das mulheres, dos desempregados, dos gays e dos imigrantes não podem ser entendidos pela sociedade de forma fracionada, desdenhada. Assim, não estamos promovendo a discussão, o debate coletivo, mas promovendo mera insinuação de atos.
O que políticos, meios de comunicação e grupos organizados fizeram no caso do menino João Hélio foi banalizar a questão sobre se a sociedade “acha correto alguém cometer um crime e passar apenas três anos na prisão”. A resposta (assim como a pergunta) é óbvia.
Mas como mobilizar esta sociedade para que crimes (de maior ou menor comoção social) sejam sentenciados e realmente cumpridos? Como reverter um quadro de incontáveis sentenças judiciais nas quais penas de trinta, vinte ou dezoito anos se transformam em mera abstração da realidade e os condenados estão soltos? A divulgada e pouco discutida “sentença de três anos para os jovens infratores ou assassinos” nos assusta, não porque estamos falando de juventude, de violência, do caos urbano (e rural) ou da gritante e ainda mantida divisão social, mas porque não acreditamos na justiça como um todo. Preferimos acreditar que três anos de reclusão é pouco para um crime bárbaro. É pouco, claro.
Como pouco foi o nosso olhar crítico sobre o episódio do menino João, dos mortos da Candelária, dos jovens castrados no Maranhão, da irmã Stang, dos fiscais do trabalho em Unaí, dos que morreram à nossa volta aqui em BH, Ribeirão das Neves, Sabará ou Pedro Leopoldo. Ficamos mais informados, mais aterrorizados, nada mais que isto.
Incipiente é a contribuição que a imprensa e os meios de comunicação em geral (salvo raríssimas exceções) tem dado para que um debate mais apurado sobre a trágica realidade brasileira ocorra de fato. A briga pela audiência talvez não permita esta possibilidade. Diversos interesses estão postos. Os nossos, enquanto leitores, telespectadores, ouvintes e anunciantes, inclusive.
Que nossos jovens tenham direitos a atividades que os mantenham plenamente vivos, inseridos na dinâmica da cidade, que pode e deve ser acessível a todos.
É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor. Art. 18 do ECA. Cumpra-se!
Para William e Sãozinha, que acreditam na força juvenil sem alienar o debate sobre temas relevantes.